Sé de Viseu
Nesta página:
I . História
II .Descrição
III . Nossa Senhora do Altar-mor
IV . Origens da Diocese de Viseu
I . HISTÓRIA
A construção da primitiva Sé românica dedicada a Santa Maria, remonta ao período dos condes portucalenses, D. Henrique e D. Teresa, sendo a primeira sagração provavelmente em 1109, na dependência do Bispado de Coimbra.
Com a restauração da diocese de Viseu em 1147, a catedral beneficiou especialmente das doações de D. Afonso Henriques e do Bispo D. Odório (c.1147-1165).
Na segunda metade do século XIII, com D. Egas (1288-1313), houve uma profunda renovação do anterior edifício românico, sob a direcção do mestre Pero Martins.
Em 1314, foi realizada a segunda sagração da catedral.
Prolongaram-se as obras durante os séculos XIV e XV, salientando-se a construção de um novo claustro – claustro gótico. Durante o reinado de D. João I, a torre do antigo castelo e a torre de menagem foram doadas a D. João Homem (c. 1391/92-1425) e, posteriormente, foi construída no mesmo claustro a capela funerária do Calvário, por D. João Vicente (1444-1463).
Nos inícios do século XVI, D. Fernando Gonçalves de Miranda (1482-1505) encomendou à oficina dos mestres Vasco Fernandes e Francisco Henriques (1500-1506), o grandioso políptico para a capela-mor. D. Diogo Ortiz de Vilhegas (1505-1519) continuou e promoveu um ambicioso programa de renovação do templo, com a edificação da magnífica abóbada dos nós e de uma nova frontaria.
Em 23 de Julho de 1516 foi realizada uma nova e definitiva sagração da Sé.
Com D. Miguel da Silva (1526-1547), iniciou-se novo projecto artístico, com a construção do claustro renascentista e encomenda de vários retábulos, também à oficina de Vasco Fernandes (1528-1535), nomeadamente para as capelas colaterais de São Pedro e de São João Baptista.
Durante o bispado de D. Gonçalo Pinheiro (1552-1567) foi construída a ampla escadaria de acesso ao coro-alto. Com D. Jorge de Ataíde (1568-1578) foi edificada nova sacristia e promovida a construção do notável Paço dos Bispos, ao qual se anexou o Colégio-Seminário Conciliar instituído em 1587, no contexto das determinações do Concílio de Trento.
Em 1635, um violento temporal provocou a ruína de uma das torres e da frontaria manuelina, que foi reconstruida segundo projecto do arquitecto espanhol João Moreno (1565-1637). Com D. João de Melo (1673-1684), foi alterada profundamente a estrutura da capela-mor, tendo sido substituído o retábulo quinhentista por outro, de acordo com o gosto da época. Neste período foi também instituída a Capela do Santíssimo Sacramento no topo Sul do transepto.
Durante a sede vacante (1720-1740), o Cabido desenvolveu um vasto programa de reformas, que alterou significativamente o interior da Sé. Abriram-se janelas e frestas, as paredes foram rebocadas, sendo colocados um novo pavimento e lambris de azulejos nas naves laterais. Para a capela-mor, foi encomendado novo retábulo e novo cadeiral. As capelas colaterais foram alteadas e ampliadas, os retábulos substituídos por outros em talha dourada, e as paredes revestidas com painéis de azulejos. Foi edificado um novo Baptistério, encomendados novos púlpitos e novo Órgão. No claustro, foi acrescentado o piso superior incluindo as Casas do Cabido e a Varanda dos Cónegos.
Na sequência das reformas liberais de 1834, instalaram-se no velho Paço diversos serviços e repartições do Estado. Neste período conturbado, foram realizadas intervenções de restauro e várias demolições sem o devido entendimento com os responsáveis eclesiásticos, alterações irreversíveis em grande número dos casos.
Em 1918, foi inaugurado o Museu Grão Vasco no claustro superior onde ficou exposto o valioso Tesouro da Sé. Em 1921, foram transferidos os grandes painéis de azulejo da nave para o claustro, onde actualmente se encontram.
Na década de 30 (Século XX), a DGEMN iniciou uma campanha de restauro com especial repercussão na Sé de Viseu. Foi removido o retábulo da Capela do Santíssimo Sacramento, pondo a descoberto a porta gótica de acesso à Capela do Calvário, para onde se deslocou o Baptistério; foi transferido o grande órgão de tubos para o Seminário Maior; e adaptada a antiga Capela de São Pedro a Capela do Santíssimo Sacramento.
No claustro superior manteve-se o espaço expositivo do Museu de Arte Sacra e o Museu Grão Vasco passou a ocupar o antigo Paço.
O amplo adro da Sé foi pavimentado e todo o espaço envolvente especialmente reorganizado, valorizando a imponência do conjunto monumental.
II . DESCRIÇÃO
A Catedral de Viseu e toda a zona envolvente, em situação privilegiada no centro histórico da cidade, é um dos mais belos conjuntos monumentais de Portugal.
Do lado direito, o Claustro, a Varanda dos Cónegos e a antiga Torre de Menagem e, à esquerda, o antigo Paço Episcopal – actual Museu Grão Vasco – conferem-lhe especial imponência.
No adro, ergue-se o alto cruzeiro em granito, com o brasão de D. Júlio Francisco de Oliveira (1740-1765).
Na fachada, preside a imagem de Nossa Senhora da Assunção, Padroeira da Sé e, no plano inferior destaca-se São Teotónio, padroeiro da diocese e da cidade de Viseu. Lateralmente estão representados os quatro evangelistas.
As grandes torres sineiras com balaustrada e zimbório, evidenciam o carácter de fortaleza da edificação primitiva. A antiga torre dos sinos, do lado esquerdo, foi reconstruída no século XVII, e na Torre Sul, da época gótica, foi instalado o actual relógio em 1732.
Lateralmente e na fachada posterior, destacam-se possantes contrafortes sobre afloramentos graníticos e vestígios da primitiva torre românica do Paço Condal.
O interior da Catedral, em granito da região beirã, é de grande monumentalidade e beleza.
No coro-baixo (1), é notável a abóbada manuelina, com nervuras e vários brasões policromados.
Do lado esquerdo, encontra-se a Capela do Senhor dos Passos (2), edificada pelo cónego Henrique de Lemos (c.1567), conforme inscrição no pórtico, com brasão.
Na nave (3), ergue-se a monumental e impressionante abóbada dos nós, concluída em 1513, segundo alguns autores atribuída a João de Castilho (1490 -1581). A imensa estrutura ogival abrange todo o espaço interior, desde o transepto ao coro-alto. Nos fechos encontram-se as divisas dos Reis D. Afonso V, D. João II e D. Manuel, e os brasões da Rainha D. Maria de Aragão e Castela e de D. Diogo Ortiz.
Destacam-se também dois notáveis púlpitos, segundo desenho de Gaspar Ferreira (1721), de bases em pedra lavrada, com balaustradas e baldaquinos em talha dourada.
Do lado esquerdo, está exposto o precioso relicário de São Teotónio, em prata dourada.
No transepto direito, encontra-se a Capela do Santíssimo Sacramento (4), com retábulo em talha dourada do mestre Manuel Correia (1721), com a notável escultura de São Pedro, de Claude Laprade (c.1675-1738) e, lateralmente admiráveis anjos tocheiros. As paredes estão revestidas de painéis de azulejo com a Pesca Milagrosa e Entrega das Chaves a São Pedro – alusivos à primitiva invocação -, do mestre Manuel da Silva (1722).
O Altar de Santa Isabel (5) tem retábulo profusamente decorado em talha dourada do mestre Manuel Vieira da Silva (1727). Preside a Rainha Santa, de especial veneração na cidade de Viseu, representada como Clarissa, escultura do século XVIII.
Do lado direito, encontra-se o mausoléu de Lourenço Coelho Leitão (6) e sua mulher Ana Cardoso de Távora, com inscrição referente à instituição neste espaço da primitiva Capela do Santíssimo Sacramento em 1629. Está ladeada pelos brasões das famílias Coelho Leitão e Amaral Cardoso.
No topo do transepto, acede-se à antiga Capela do Calvário - actual Baptistério (7) –, destacando-se a admirável abóbada e capitéis de ornamentação original; o arcossólio guarnecido de flor-de-lis, do instituidor da capela; e a pia baptismal em brecha da Arrábida.
No transepto esquerdo, encontra-se a Capela de São João Baptista (8), com retábulo em talha dourada também do mestre Manuel Correia, onde se destaca a magnífica escultura de São João Baptista, de Claude Laprade. Os painéis de azulejo representam São João Baptista e O Baptismo de Cristo, igualmente do mestre Manuel da Silva.
No Altar de Nossa Senhora do Rosário (9), idêntico ao de Santa Isabel, destaca-se a excelente escultura da Virgem, também de Claude Laprade.
No topo do transepto, encontra-se o grande retábulo actualmente do Sagrado Coração de Jesus (10) - atribuído ao mestre Francisco Lopes de Matos (1673-1684). Ao centro, encontra-se o sacrário em talha dourada, tendo inscritas na porta as palavras da Consagração. Na tribuna, preside actualmente a imagem do Sagrado Coração. Lateralmente encontram-se pinturas representando O Nascimento da Virgem e Os Esponsais, A Visitação e A Sagrada Família, e imagens recentes de Nossa Senhora e São José. No remate, escultura de Cristo Ressuscitado ao centro, e lateralmente Santa Ana com a Virgem e São Joaquim completam o conjunto alusivo à antiga invocação de Santa Maria.
No cruzeiro, foi colocado o novo altar, segundo projecto do arquitecto Luís Cunha (1992).
O arco triunfal totalmente revestido de pintura decorativa, tem ao centro um óculo emoldurado por admirável talha dourada.
Na Capela-mor (11), o grandioso retábulo tem ao centro Nossa Senhora, também designada como Senhora do Altar-Mor, de antiga veneração, sobre trono integrado numa magnífica tribuna. O retábulo, em rica talha dourada segundo desenho do mestre Santos Pacheco (1684-1753) e realizado por Francisco Machado (1733), integra também as imagens de São Teotónio e de São Filipe de Néri – encomenda do bispo Oratoriano D. Júlio Francisco de Oliveira.
A abóbada, totalmente pintada com admirável decoração (1675-1684), tem medalhão central representando Nossa Senhora da Assunção.
Destaca-se ainda o Cadeiral dos Cónegos, em madeira do Brasil, segundo desenho de Gaspar Ferreira.
Na Sacristia (12), inteiramente revestida de azulejos policromos do século XVII – possivelmente os mais antigos da Sé -, destaca-se: o magnífico tecto com brasão de D. Jorge de Ataíde; o arcaz também do século XVII; os notáveis espelhos de Caetano Barriaro (1735-1736); e o enorme lavabo em granito.
A ampla escadaria (13), de três lanços e acesso ao coro-alto, tem cobertura em abóbada com o brasão de D. Gonçalo Pinheiro.
No Coro-alto, é visível no tramo central da abóboda o brasão de D. Diogo Ortiz com legenda referente à sua edificação e o brasão de D. Jorge da Costa (1406-1508), patrocinador da Sé.
O cadeiral, encomendado por D. Miguel da Silva, está decorado com figuras exóticas e animais de simbologia religiosa. Tem incorporado um espaldar com chinoiserie do mestre Manuel da Silva, do século XVIII.
Destaca-se ainda a estante de pau-santo do século XVII e o admirável atril de coro em forma de pelicano possivelmente dos finais do século XV.
O claustro (14) renascentista, edificado segundo o risco de Francisco de Cremona (c.1480-c.1550), tem peculiar arcaria e capiteis, com brasão de D. Miguel da Silva nas abóbadas.
No piso inferior destaca-se a Capela do Cristo Morto instituída em 1557, com retábulo em baixo-relevo em pedra de Ançã, representando o Descimento da Cruz, de João de Ruão (1500-1580); a Capela da Assunção, de 1763, com cenas da vida da Virgem em relevo policromado; a admirável Porta Gótica, com a primitiva escultura de Nossa Senhora com o Menino, possivelmente do século XII; o túmulo de D. João Vicente (século XV) em granito, com brasão e estátua jacente; a Capela Tércia, ou da Vera Cruz, com inscrição relativa à edificação no pórtico e a abóbada com o brasão de D. Gonçalo Pinheiro.
Nas paredes do claustro estão expostos painéis de azulejos provenientes do interior da Sé, representando A Adoração dos Magos e O regresso da Sagrada Família do Egipto; e Passos da vida de São Teotónio, da oficina conimbricense de Agostinho de Paiva (c.1720).
A Capela do Crucificado, instituída no século XVI pelo cónego Jorge Henriques após uma viagem à Terra Santa, tem várias representações dessa invocação.
No claustro superior, construído no século XVII pelo mestre António Ribeiro (1736), encontra-se instalado o Museu de Arte Sacra.
Destaca-se ainda neste espaço a antiga Casa de São Teotónio, o painel de azulejo com A Oração de São Teotónio na viagem atribulada à Terra Santa e a célebre Varanda dos Cónegos (15) com esplêndida vista panorâmica sobre a bela e histórica cidade de Viseu.
III . NOSSA SENHORA DO ALTAR-MOR
A Sé de Viseu teve, desde o início, a invocação de Santa Maria, que se manteve ao longo da sua história secular.
Segundo antiga tradição, a imagem de Nossa Senhora que preside no Altar-mor é venerada desde o período visigótico, anterior à chegada dos mouros.
No período de ocupação muçulmana (séculos VIII - XI.), os viseenses esconderam-na num monte de pedras, pelo receio de ser destruída.
“No tempo que os Mouros (…) invadirão as Hespanhas, e a sujeitaram, que eram todas de Católicos, (…) foram entrando, e destruindo as terras da Lusitânia, e chegando à Cidade de Viseu, onde esta Sagrada Imagem já era tida em grande veneração: temendo os Católicos que os Mouros pudessem fazer alguma injúria, ou irreverência a esta Senhora, a ocultaram em hum monte de pedras, para que desta sorte oculta, pudesse escapar às injúrias. (…) Passaram-se muitos anos, e vieram a se criar naquele sítio muitas silvas (…):Eram estas pedras de huma grande pedreira de pedra viva, que havia naquele lugar” (1).
Após a reconquista, a imagem foi encontrada nesse sítio, motivo pelo qual foi chamada Senhora da Silveira, Senhora do Pedrogal, Senhora do Pedrão e Senhora do Altar-Mor.
Segundo memória antiga, o local corresponde ao actual altar-mor da Sé, porque “no mesmo lugar do Altar mor [a imagem] fora descoberta, e por memória de sua manifestação, se lhe edificara naquele lugar sua Capela, logo que a Senhora se descobriu, depois que os Cristãos recuperaram de todo, do poder dos Mouros, a Cidade” (1).
A escultura, em granito, representa Nossa Senhora com o Menino Deus sobre o braço esquerdo. “O rosto da Senhora (…) mostra uma majestade toda soberana (…). Tem as roupas pintadas com matizes de ouro” (1). Ambas as imagens estão coroadas.
A veneração por Santa Maria, Mãe de Deus, remonta ao início do cristianismo. Em Portugal, a dedicação das Catedrais a Santa Maria é de antiquíssima tradição e anterior à nacionalidade. Desde D. João I, todas as sés portuguesas têm a invocação de Nossa Senhora da Assunção.
Em Viseu, a devoção desenvolveu-se e intensificou-se ao longo dos séculos. O culto de Nossa Senhora do Altar-mor, invocada particularmente em época de epidemia, e venerada em todo o Bispado, marcou de forma profunda e memorável a história secular de toda a região.
IV . AS ORIGENS DA DIOCESE DE VISEU
A Diocese de Viseu é uma das mais antigas de Portugal, não sendo possível determinar quando chegou o cristianismo à região. A partir de 270, existem referências a bispos de Viseu em cronistas antigos: São Justo, Santo Auto…
No século V, a região foi invadida pelos Suevos e Alanos. A partir do seculo VI, com a conversão dos Suevos, Viseu adquiriu o estatuto de cidade episcopal. Supõe-se que o bispado já existia quando do primeiro Concílio de Braga (561).
No Concílio de Lugo (569), o território da diocese estendia-se até ao rio Águeda próximo da Cidade Rodrigo. O primeiro bispo de Viseu conhecido, com registo documental, foi D. Remissol (572).
Em (c.) 716, Viseu foi conquistada pelos muçulmanos. Neste período ficaram registados os nomes de alguns bispos viseenses, sendo Teodomiro, o mais antigo que se conhece. Ao longo do século X, a cidade esteve transitoriamente nas mãos dos cristãos, sendo restaurada a diocese por volta de 900.
Em 1058, Viseu foi reconquistada definitivamente por Fernando Magno de Leão. A cidade foi colocada sob administração do Bispo de Coimbra, sendo a Sé governada por priores. É desta época São Teotónio, nomeado prior da Sé de Viseu pelo bispado de Coimbra.
A restauração da diocese de Viseu deu-se em 1147 com D. Afonso Henriques, tendo D. Odório como primeiro bispo após a fundação da nacionalidade. Nos finais do Século XII, era uma das sete dioceses existentes nos territórios do reino.
A secular Diocese de Viseu é uma das regiões onde o cristianismo moldou de forma particular, todo o território e a sua população.
A Solenidade da Dedicação da Catedral de Viseu celebra-se a 23 de Julho, memória da última sagração da Sé em 1516.
- SANTA MARIA, Agostinho de, Santuario Mariano e Historia das Imagens Milagrosas de Nossa Senhora E das milagrosamente aparecidas (…), Tomo 5, Lisboa, Na Officina de António Pedrozo Galram,1716, pp. 141-144.
REFERÊNCIAS
- ALMEIDA, Fortunato de, História da Igreja em Portugal, nova edição preparada e dirigida por Damião Peres, 4 vols., Porto, Portucalense Editora/Livraria Civilização – Editora, 1967-1971.
- AZEVEDO, Carlos, (dir.) Dicionário da História Religiosa de Portugal, Lisboa, Ed. Círculo de Leitores, 2000.
- Monumentos, nº 13, Lisboa, Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, Setembro de 2000.
- Roteiro Tesouro da Catedral, Museu de Arte Sacra, Viseu, Ed. Diocese de Viseu, 2018.
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