O túmulo perdido de D. Rodrigo, o último rei dos Godos, Viseu
Na igreja de São Miguel do Fetal, em Viseu, numa capela lateral da capela-mor, encontra-se um túmulo em granito com que, segundo a tradição, corresponde aos restos de D. Rodrigo (c. 687 – c. 711), o último rei dos Godos.
A lápide sepulcral tem inscrição na parte frontal:
HIC IACET, AUT IACUIT POSTREMUS IN ORDINE REGUM GOTTORUM, UT NOBIS NUNTIA FAMA REFERT
(Aqui jaz, ou jazeu, o último na ordem dos reis dos Godos, segundo nos relata a tradição).
As referências mais antigas ao sepulcro foram registadas nas Crónicas de Afonso III das Astúrias (c.852-910). Segundo as Crónicas, os guerreiros do rei asturiano, durante a reconquista de Viseu em (c.) 880, teriam encontrado a sepultura do rei visigodo integrada numa basílica situada nos subúrbios da cidade.
A Chronica Naierensis (1173/1194) refere explicitamente que De Rodrigo, verdadeiro rei, de que já fizemos menção, não se sabe ao certo da sua morte. No nosso rude tempo, quando a cidade de Viseu e seus subúrbios eram povoados por nós, há uma basílica onde há uma sepultura que tem um epitáfio que diz “Aqui descansa Rodrigo, o último rei visigodo” (1).
O ilustre cronista Manuel Botelho Ribeiro Pereira no livro Diálogos Morais e Políticos (1630-1636), considerado a primeira crónica da historiografia viseense, localizou a sepultura em São Miguel do Fetal, aludindo também à antiga lenda do aparecimento de uma cobra associada ao túmulo: “ hua caixa de pedra junto ao chão, e com hum buraco em hum canto, por onde dizem que entrava a cobra de duas cabeças, que com huma lhe comeo as partes pudendas, e com a outra o coração” (2). Acrescentou que, durante o episcopado de D. Jorge de Ataíde (1535-1611), foi ordenada a transladação dos restos mortais do rei Rodrigo para a Sé Catedral.
Também João de Paiva, em 1638, se lhe refere no livro Descrição da Cidade de Viseu, suas antiguidades e cousas notáveis que contém em si e seu Bispado, incluindo também a epígrafe “Aqui jaz Rodrigo último Rei dos Godos “.
A inscrição actual foi provavelmente realizada quando a igreja foi restaurada na primeira metade do século XVIII.
Na historiografia local, o notável investigador Maximiano de Aragão (1853-1929), refere também nos seus estudos, a tradição do refúgio de D. Rodrigo no eremitério de São Miguel.
D. Rodrigo, o último Rei Visigodo
A história de D. Rodrigo está envolta em lendas. Eleito rei dos visigodos, após a morte do rei Vitiza (710), e perante a invasão muçulmana do Sul da Península, marchou em direcção a Toledo e depois ao Sul da Hispânia, onde foi derrotado na famosa Batalha de Guadalete (711). O seu corpo não foi encontrado.
Segundo uma das muitas tradições orais transmitidas, D. Rodrigo fugiu para Mérida e depois para o extremo ocidental da Península – onde ficou associado à antiga imagem de Nossa Senhora da Nazaré, em Portugal. Passados anos, abandonou o local, vindo refugiar-se num eremitério em Viseu, onde morreu, sendo enterrado na igreja actualmente dedicada a São Miguel Arcanjo.
A invasão muçulmana da Península Ibérica
A invasão muçulmana da Península Ibérica foi realizada a partir de Ceuta e, segundo a tradição, ajudada por um nobre cristão – o conde Juliano – em represália de afrontas recebidas da parte do rei visigodo.
Em 711, as forças de Tariq ibn Ziyad (c. 670-720) desembarcaram no actual Gibraltar e, não encontrando resistência, foram avançando para o interior da Península. Os reis visigóticos, dilacerados por lutas internas, não conseguiram opôr-se ao avanço sarraceno, sendo a Batalha de Guadalete considerada a derrota final do reino visigótico.
A invasão fez-se por várias fases, sendo relativamente rápida. As forças muçulmanas, sob comando de Musa Ibne Nocair (640-716), entraram pela primeira vez em Viseu cerca de 716.
O domínio muçulmano nesta cidade teve vários períodos, intercalados por retomadas cristãs. Cerca de 878, o exército de Afonso III das Astúrias ocupou Viseu, tendo os cristãos retomado a cidade e reedificando-a.
Viseu voltou a cair sob domínio muçulmano durante a campanha de Almansor (939-1002), até à reconquista definitiva da cidade, em 1058, por Fernando Magno de Leão (1016-1065).
A igreja de São Miguel do Fetal
O primitivo templo teria sido construído durante o período das monarquias suevo-visigótica (século V-VIII), utilizando materiais de construção de edifícios romanos, numa área fora da cidade, na proximidade de uma das antigas portas imperais romanas.
Segundo antiga tradição, teria sido refúgio do último rei dos Godos, após a derrota da Batalha de Guadalete em 711.
Após a conquista da cidade por Afonso III das Astúrias (cerca de 870-880), o edifício foi remodelado ou parcialmente desmantelado. Sobre ele foi construído um templo de maiores dimensões, e possivelmente utilizado como Sé – a referida antiga igreja moçárabe dedicada ao Arcanjo São Miguel.
Durante a segunda ocupação muçulmana de Viseu (981-1058), o templo, localizado fora de muros e escondido entre matos e fetos, terá escapado à destruição pelos invasores, mantendo-se como local de culto dos cristãos.
Com a conquista final de Viseu em 1058, é possível a igreja ter sido utilizada como Sé – a antiga Sé de Viseu, segundo alguns autores -, durante a construção da nova catedral.
A menção específica mais antiga ao orago da igreja é da Vida de São Teotónio (c. 1162), referindo que o prior (São Teotónio), às sextas-feiras, rezava a “missa por todos os fiéis defuntos na igreja de S. Miguel Arcanjo, que ficava fora das muralhas no cemitério da cidade” (3).
Na primeira metade do século XVIII, foi construído novo templo, durante o bispado de D. Jerónimo Soares (1635-1720) - o anterior estava bastante arruinado -, tendo o restauro incluído o túmulo do rei Rodrigo. Em 8 de Janeiro de 1740, procedeu-se à bênção da nova igreja.
Estando, em 1855, novamente abandonada, foi cedida à Irmandade de Santa Cruz e Passos de Viseu, pelo cabido da Sé, que manteve a administração do templo até à actualidade.
A igreja de São Miguel do Fetal está especialmente associada à memória do local de enterramento de Rodrigo, o último rei Visigodo.
- MEIRA, Catarina, Nova Leitura sobre as Estruturas Arqueológicas da Rua das Ameias / Praça D. Duarte, Beira Alta, Revistas de estudos da Região, Volume 81, Nº 1 e 2, 2022, pp. 249-250.
- EUSÉBIO, Fátima, Descrição da Cidade de Viseu, suas Antiguidades e cousas notáveis que contém em si e seu Bispado: Considerações Históricas, Faculdade de Letras – UCP, 2002, p. 62-64.
- Vita Theotonii, in NASCIMENTO, Aires A., Vida de São Teotónio, Lisboa, Ed. Colibri, 2013, p. 103.
REFERÊNCIAS
- EUSÉBIO, Fátima, Descrição da Cidade de Viseu, suas Antiguidades e cousas notáveis que contém em si e seu Bispado: Considerações Históricas, Faculdade de Letras – UCP, 2002.
- TENTE, C., JÍMENEZ, O., ALVES-CARDOSO, F., CASIMIRO, S., ALVES, C. (2018), A igreja de São Miguel de Fetal (Viseu). Resultados das escavações arqueológicas e a sua interpretação, ed. Do Império ao Reino. Viseu e o território entre os séculos IV a XII, Viseu: C. M. Viseu, 2018, p. 80-99.
- MEIRA, Catarina, Nova Leitura sobre as Estruturas Arqueológicas da Rua das Ameias / Praça D. Duarte, , Revistas de estudos da Região, Volume 81, Nº 1 e 2, 2022.
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