Os painéis de azulejos do claustro da Sé de Viseu


Nas paredes do claustro da Sé de Viseu estão expostos grandes painéis de azulejos representando passos da vida de São Teotónio (c. 1082-1162), padroeiro de Viseu e primeiro prior do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e considerado o primeiro santo português.

Os painéis foram realizados entre 1720 e 1722, e revestiam originalmente as paredes laterais da nave da Sé de Viseu. São obra da oficina do mestre conimbricense Agostinho de Paiva (1695-1734). Entre 1912 e 1919, foram retirados do interior da igreja e colocados nas paredes do claustro.

As cenas representadas baseiam-se na Vita Theotonii, escrita por volta de 1162/1163, de autor anónimo, antes da canonização do notável Santo (18 de Fevereiro de 1163).

 

São Teotónio e a tempestade durante a segunda peregrinação à Terra santa

No claustro superior encontra-se o painel representando a Oração de Teotónio na viagem atribulada à Terra Santa.

O painel representa o barco que transportava os peregrinos, agitado pelas águas, quando entrou em situação de perigo devido a uma forte tempestade: “(…) de repente o céu toldou-se e eis que uma nuvem, com ventos violentos e um terrível fragor, os encobriu por cima (…),  o navio começou a rodar por entre as porcelas das vagas, e num repente se arrancou o mastro e caiu às ondas (…). O mar estremecia e encapelava-se sobre eles (1). No canto inferior direito, está representado um enorme animal, conforme o relato do seu aparecimento: “Uns diziam que era um dragão, outros que era um monstro (…) ”. (1)

O Santo está representado ao centro, ajoelhado: “ Dom Teotónio tinha-se prostrado em oração também em lágrimas e, todo voltado para Deus (…) invocou o Senhor da vida e do alento “ (1). Os seus companheiros de viagem têm os braços erguidos mostrando aflição.

O painel está enquadrado por cercadura arquitectural, grinaldas e anjos.

São Teotónio fez duas viagens à Terra Santa, quando se encontrava em Viseu: a primeira possivelmente em 1116/1117, a segunda alguns anos depois, realizada provavelmente na década entre 1120 e 1130.

A cena representada no painel corresponde à segunda viagem. Segundo a Vita Theotonii, São Teotónio partiu para Jerusalém acompanhado de grande número de peregrinos. Na cidade portuária de Bari (Itália), embarcou em direcção aos Lugares Santos. Junto ao promontório de Málea, na costa sudeste da Grécia, a embarcação foi assolada por grande tempestade – representada no painel. Os peregrinos seguiram viagem em direcção a Jope, actual Israel, chegando finalmente a Jerusalém, algumas semanas depois.

 

São Teotónio impõe o hábito de Cónegos Regrantes

O segundo painel encontra-se no claustro inferior e representa uma cena da vida claustral do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. São Teotónio está sentado, com mitra e pluvial, acompanhado por outros crúzios. O prelado lança o hábito monástico a dois cónegos, doze deles já revestidos do hábito - túnica branca, sobrepeliz, alva e murça preta. Ao centro, encontram-se membros da nobreza que assistem à cerimónia num varandim. O povo está representado do lado direito.

São Teotónio integrou o grupo dos doze monges que fundaram o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra em 1131, da Ordem de Cónegos Regrantes de Santo Agostinho – os Crúzios. A vida comunitária iniciou-se em 1132, sendo São Teotónio o seu primeiro prior.

O mosteiro foi fundado sob o patrocínio de D. Afonso Henriques (1109-1185), primeiro Rei de Portugal. Foi sede dos Cónegos Regrantes em Portugal, e considerado o berço dos primeiros estudos medievais em Portugal.

 

São Teotónio recebe D. Afonso Henriques após a Batalha de Ourique,

O terceiro painel, também no claustro inferior, representa o encontro de D. Afonso Henriques com São Teotónio após a Batalha de Ourique.

São Teotónio está representado à esquerda, com vestes prelatícias, acompanhado de outros cónegos. D. Afonso Henriques enverga traje militar, ceptro e uma longa capa. Está inclinado perante o Santo, no gesto de beijar-lhe a mão. Segue-se um grupo numeroso de guerreiros e cavaleiros, com as suas lanças, que guardam um grupo de cinco prisioneiros de mãos atadas.

A cena está baseada também no texto da Vita Theotonii. Este relata como D. Afonso Henriques foi vitorioso contra os mouros na célebre batalha de Ourique, tendo feito numerosos prisioneiros, entre eles cristãos moçárabes: “Quando Afonso, nobre infante de Portugal, marchando à frente do seu exército (…) devastou quase toda a zona dos sarracenos, os seus homens, entre prisioneiros incontáveis, fizeram cativos também um grupo de cristãos a que em língua vulgar dão o nome de moçárabes e que aí se encontravam sob dominação pagã, ainda que observando habitualmente o rito da religião cristã, e submeteram-nos à escravatura segundo os direitos da gente de guerra” (2). São Teotónio, “Tendo disso tomado conhecimento (…) foi ao encontro do rei e de todo o seu exército”, censurando-lhe o ter submetido à condição de escravos “irmãos vossos“. Por efeito da acção do Santo, o “rei e os seus homens libertaram toda aquela gente e deixaram-nos partir em liberdade na presença dele” (2).

Na década de 1130, D. Afonso Henriques fazia incursões repetidas nas terras dominadas pelos sarracenos, de forma a reconquistá-las para a cristandade, nomeadamente uma grande incursão nas terras do al-Gharb al-Andalus. Em 25 de Julho de 1139, deu-se a célebre Batalha de Ourique, local no Alentejo considerado tradicionalmente o da grande vitória sobre os mouros e associado aos começos da nacionalidade.

D. Afonso Henriques regressou a Coimbra trazendo consigo numerosos prisioneiros, entre eles um grande número de moçárabes.

Em Coimbra, sede da corte, estava localizado o Mosteiro de Santa Cruz, do qual o primeiro rei de Portugal foi especial protector, e onde foi sepultado.

 

São Teotónio

Teotónio nasceu cerca de 1082 em Ganfei, concelho de Valença, sendo levado para Coimbra, onde era bispo D. Crescónio, seu tio. Após os estudos eclesiásticos, foi para Viseu, sendo ordenado presbítero e eleito Prior da Sé viseense em 1110 (c.). No contexto de uma possível restauração da diocese de Viseu, foi-lhe proposto o bispado, que recusou. Renunciando também ao priorado, foi em peregrinação aos Lugares Santos.

Em 1131, integrou o grupo dos Fundadores do Mosteiro de Cónegos Regrantes de Santa Cruz de Coimbra, sendo eleito primeiro Prior. Acompanhou de forma particular D. Afonso Henriques e a sua actividade militar - episódios amplamente representados na iconografia.

Faleceu em 1162, sendo sepultado no Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra. Foi canonizado em 1163.

Foi declarado padroeiro da cidade e da diocese de Viseu por D. João de Bragança (1599-1609) e neste contexto foi celebrada solenemente a vinda de Coimbra das relíquias de São Teotónio para a Sé viseense, em 1603.

São Teotónio é representado geralmente com o hábito de Cónego Regrante, o livro, o báculo e a mitra a seus pés.

A festa litúrgica é celebrada no dia 18 de Fevereiro.

 

  1. Vita Theotonii, in NASCIMENTO, Aires A., Vida de São Teotónio, Lisboa, Ed. Colibri, 2013, pp. 109-111.
  2. Idem, p.137.

 

REFERÊNCIAS

  1. MATTOSO, José, D. Afonso Henriques, Lisboa, Ed. Temas e Debates, 2007.
  2. NASCIMENTO, Aires A., Vida de São Teotónio, Lisboa, Ed. Colibri, 2013.
  3. AZEVEDO,CARLOS Moreira de, Estudos de Iconografia Cristã, Vila Nova de Gaia, Ed. Fundação Manuel Leão, 2016.
  4. Roteiro Tesouro da Catedral, Museu de Arte Sacra, Viseu, Ed. Diocese de Viseu, 2018.


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