O Caminho de Santiago de Leon de Rosmithal


Os Caminhos portugueses de Santiago atravessam todo o território, conformando particularmente o Norte de Portugal, não só pelo culto ao grande santo como pelo património que lhe está associado.

Foi grande a demanda de peregrinos que percorriam os caminhos portugueses em direcção a Santiago de Compostela. Há referências no século X, à obrigação do sustento de peregrinos, na doação dos reis de Leão em territórios mais tarde portugueses.

Ao longo do século XII, iniciou-se uma rede de albergarias de apoio aos viandantes. Com a independência de Portugal, multiplicaram-se as marcas do culto a São Tiago no território.

Alguns dos primeiros reis percorreram estes caminhos, nomeadamente D. Afonso II (1220), D. Sancho II (1244), a Rainha Santa Isabel (1325-1335), D. Manuel I (1502).

O caminho português de Santiago incluía várias alternativas: a partir do território lusitano, nomeadamente pelo Alto Minho e Trás-os-Montes; ou na sequência dos caminhos provenientes de Espanha, pelo interior.

Num dos caminhos do interior, os peregrinos entravam em Portugal atravessando o Rio Douro, por Freixo de Espada à Cinta até Torre de Moncorvo. Dirigiam-se depois para Santiago de Compostela com duas opções: para Norte, passando pela Junqueira; ou para oeste por Cabeça de Mouro. Foi esta última alternativa que seguiu o Barão de Rosmithal na sua peregrinação a Santiago de Compostela em 1466.

 

A Peregrinação de Leão de Rosmithal.

O Barão Jaroslav Lev de Rosental e Blatna - Leão de Rosmithal - (c. 1425-1480), aristocrata da Boémia (actual República Checa), fez uma viagem diplomática pela Europa entre 1465 e 1467, em representação do seu cunhado, o rei Jorge de Pôdebrady da Boémia, acompanhado por uma grandiosa comitiva composta por mais de quarenta cavaleiros checos.

A delegação partiu de Praga a 26 de Novembro de 1465, seguindo para a Alemanha, Países Baixos, Inglaterra, França, Espanha, Portugal e Itália. Por cada região por onde passou, Leão de Rosmithal encontrou-se com monarcas e membros da nobreza europeia.

Ao aproximar-se das terras lusas, Leão de Rosmithal iniciou o caminho interior de peregrinação a Santiago de Compostela.

A comitiva entrou em Portugal no Verão de 1466. Atravessou o Douro por barca, como era costume, seguiu até Freixo de Espada à Cinta, passou por Torre de Moncorvo e avançou por terras transmontanas em direcção a Braga. Utilizou provavelmente a antiga via medieval que ligava Trás-os-Montes à província do Minho. Na cidade de Braga, foi recebido por D. Afonso V, seguindo depois para Tui em direcção a Santiago de Compostela. Regressou por Itália, chegando à Boémia em Abril de 1467.

Da viagem existem relatos dos cronistas que acompanharam Leão de Rosmithal: o nobre checo Vaclav Sasek de Birkov e o comerciante Gabriel Tetzel de Nuremberga (1426-1479).

A crónica de Vaclav Sasek de Birkov (final do século XV), cujo original checo se perdeu, fora entretanto traduzida para latim em 1577 por Stanislaus Pawlowski († 1598), com o título Commentarius brevis et iucundus itineris atque peregrinationis, pietatis et religionis causa susceptae ab illustri et magnífico domino, domino Leone, libero barone de Rosmital et Blatna.

A crónica da viagem de Leão de Rosmithal é a principal fonte histórica de referência do Caminho Português de Santiago no território do interior transmontano.

Em 2023, foi apresentado o projecto do Caminho Português de Santiago de Leão de Rosmithal, promovido pelo Município de Póvoa do Lanhoso. O percurso tem uma extensão de cerca de 240 km e abrange os doze municípios que fazem parte do projecto: Freixo de Espada à Cinta, Torre de Moncorvo, Vila Flor, Mirandela, Murça, Alijó, Vila Pouca de Aguiar, Ribeira de Pena, Cabeceiras de Basto, Vieira do Minho, Póvoa de Lanhoso e Braga.

O itinerário recuperado, além de caminho de peregrinação, desenvolveu-se também como importante meio de divulgação e valorização do património histórico da região.

 

O Caminho de Santiago em Torre de Moncorvo

O Caminho de Santiago que passa por Torre de Moncorvo corresponde a um dos percursos medievais do chamado caminho português. Foi percorrido também, provavelmente, por São Frei Bartolomeu dos Mártires, em 1564, na sua viagem de regresso do Concílio de Trento.

Os peregrinos, provenientes de Espanha, entravam em terras portuguesas atravessando o Douro na região da Cova da Barca - local antigo de uma barca de passagem - seguindo para Freixo de Espada à Cinta.

Em Torre de Moncorvo, os viandantes chegariam à vila vindos de Leste, percorrendo provavelmente a antiga Rua de São Tiago, que mantém o topónimo.

No início desta rua, encontra-se a Fonte de São Tiago, marco histórico edificado no século XVII. É uma construção em granito, com abóbada interior e uma fonte de mergulho, protegida por grade; no remate do frontão tem a imagem, de São Tiago a cavalo, já erodida pelo tempo; na base, encontra-se uma cartela com o brasão municipal e legenda:

ESTA OBRA MANDOU FAZER MANOEL DE SOVSA E MENESES FIDALGO DA CASA DE SVA MAGESTADE SENDO JUÍZ NESTA VILA A CVSTA DO POVO DE1628

Nesta rua (de São Tiago), localizava-se também a igreja de São Tiago, primeira matriz da vila, já referida nas Inquirições de 1258. Estava situada na zona do actual cemitério, tendo sido destruída nos finais do século XIX. Mantém-se a memória de um Santo Cristo, imagem de grande devoção, colocada no “altar de fora” da igreja, segundo referência de 1674, e que actualmente se encontra num dos altares laterais da Matriz de Nossa Senhora da Assunção.

Uma das albergarias existentes na vila, de apoio aos peregrinos, seria o Hospital do Espírito Santo - o Hospital Velho – instituído em 1491, segundo inscrição ainda existente no interior da capela: CAPELA DO ESPIRITO SANTO COM HOSPITAL PARA PASSAGEIROS POBRES DOS SEUS RENDIMENTOS (…).

Na igreja matriz de Nossa Senhora da Assunção, em 1605 segundo inscrição, foi acrescentado um alpendre na fachada Sul, possivelmente também para albergar peregrinos no final do percurso em Torre de Moncorvo.

 

O Culto de São Tiago

São Tiago Maior, natural da Galileia, foi um dos Doze Apóstolos. Depois da Ascensão, segundo uma antiga tradição, teria pregado na Hispânia, então província do Império Romano e regressado a Jerusalém. Foi martirizado por ordem de Herodes Agripa cerca do ano 44. Segundo a tradição, o seu corpo teria sido trasladado para a Galiza. 

O túmulo do Apóstolo terá sido descoberto entre 820 e 830. Afonso II das Astúrias (c. 760-842) mandou edificar uma primeira igreja, reconstruída e ampliada em 899 por Afonso III das Astúrias (c. 852-910).

A presença das relíquias do Apóstolo no extremo Noroeste da Península motivou um extraordinário fenómeno de romagem. Nos séculos XI e XII, Santiago de Compostela era considerado o terceiro maior centro de peregrinação da cristandade – a seguir a Roma e a Jerusalém.

As marcas deste culto no território são muito anteriores à independência lusitana. A igreja de São Tiago de Castelo de Neiva (ano de 862) é possivelmente o mais antigo testemunho conhecido deste culto em terras actualmente portuguesas.

O culto materializou-se em variadas formas, como orago e/ou padroeiro de igrejas e capelas. Marcou de forma particular a paisagem associada aos Caminhos de Santiago, com a construção de pontes, fontes e albergarias de apoio aos peregrinos.

São Tiago é representado iconograficamente como Apóstolo, Peregrino ou Cavaleiro. Esta última representação está associada à sua invocação como defensor dos reinos cristãos contra os mouros, no período da Reconquista.

 

REFERENCIAS

  • MARQUES, José, O culto de S. Tiago no Norte de Portugal, Lusitania Sacra, nº 4, Estudos de História Medieval, 1992, p. 99-148.
  • AZEVEDO, Pedro Ricardo Coelho, O património jacobeu em Torre de Moncorvo: usos e interpretações, Revista Memória Rural, nº 3, 2020, pp. 292-299.

 

FOTOGRAFIA

Conceição Bernardo

 



Explore Também


Adicionar comentário

Comentários

Ainda não há comentários.


Crie seu próprio site com Webador