Igreja de Nossa Senhora da Porta do Céu, Lisboa
Nesta página:
I . História
II .Descrição
III . Nossa Senhora da Porta do Céu: culto e iconografia
IV . D. João de Cândia
V . Ceilão e as origens do convento
I . HISTÓRIA
Em 1625, D. João, Príncipe de Cândia (c. 1578-1642), adquiriu um terreno em Telheiras, onde edificou um Oratório. Por volta de 1632, fundou no local um convento com a invocação de Nossa Senhora da Porta do Céu, destinado à convalescença de religiosos franciscanos.
Em 1642, o governo do convento foi entregue a Frei Manuel da Esperança, ministro provincial franciscano. Nesse mesmo ano, no entanto, após a morte do Príncipe de Cândia, a igreja passou por algumas vicissitudes, entre elas o desvio de grande parte dos bens doados ao convento pelo fundador. Frei Manuel do Sepulcro (1592-1674), antigo confessor do príncipe, conseguiu recuperar algumas das peças que lhe pertenciam e substituir outras.
Por volta de 1700, o convento teve uma campanha de obras, incluindo a trasladação dos ossos de D. João de Cândia para a igreja, em 1708, colocando sobre eles uma inscrição, hoje desaparecida.
A notável Irmandade de Nossa Senhora da Porta do Céu, entretanto instituída, teve como membros ilustres personagens da realeza e da nobreza portuguesa. Em 1752, eram juízes da confraria D. José I e D. Mariana Vitória.
O terramoto de 1755 danificou significativamente a igreja e o convento. O presidente da Mesa da Irmandade, Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, ordenou a rápida reconstrução dos edifícios. As obras ficaram concluídas em 1768.
No quadro da guerra civil, em 1833, o convento foi ocupado pelo exército liberal; os frades abandonaram o local, sendo a igreja saqueada e a biblioteca conventual destruída. Em 1834, foi decretada a extinção do convento.
Em 1882, o governo decidiu vender a igreja, então em avançado estado de degradação, mas acabou por entregá-la à Ordem Terceira Franciscana, a instâncias desta. Em 1910, porém, por ocasião da instauração da República, as dependências conventuais foram ocupadas por diversas famílias, sendo instalada na igreja uma serralharia civil.
Em 1941, começou uma campanha de restauro da igreja, permitindo a reabertura ao culto nesse ano.
O Embaixador do Sri Lanka em Bruxelas, Kalyananda Godade, visitou a igreja de Telheiras em 1993, manifestando interesse em recuperar a singular ligação deste monumento em Portugal com o antigo Príncipe de Cândia, facto quase desconhecido no contexto local.
Em 2004 foi criada a Paróquia de Nossa Senhora da Porta do Céu. E, dois anos depois, realizaram-se obras profundas de restauro, através de financiamento público e privado, que deram à igreja uma nova visibilidade.
No espaço do antigo convento, instalou-se o Colégio Mira Rio, em 2017, com projecto de construção que incluiu as edificações que ainda restavam do antigo convento.
A notável Irmandade de Nossa Senhora da Porta do Céu foi reactivada em 2019.
II . DESCRIÇÃO
A igreja é de planta longitudinal simples. A torre sineira, adossada à fachada lateral esquerda, é flanqueada por cunhais de cantaria, com o coruchéu bolboso.
Na fachada principal, destaca-se o portal de moldura dupla de calcário com duplas pilastras toscanas, rematado por pequeno friso com duas urnas A data de 1696, assinala a conclusão de uma primeira campanha de obras.
Três janelões iluminam o coro e, sobre o janelão central, encontra-se um anjo com chave, alusivo à invocação da igreja.
Na fachada, encontra-se uma cartela rematada pelas armas reais, com a histórica lápide comemorativa da reconstrução da igreja após o terramoto de 1755.
HOC MARIÆ TEMPLUM CŒLIQUE PORTA UOCATUR
HÆC TERRÆA MOTU PRÆCIPITATA DOMUS
CANDIÆ UT HANC OLIM PRINCEPS EXSTRUXIT IOSEPH
CUM REGNAT PRIMUS NUNC RENOUATA MANET
HOCQUE OEIRENSIS COMITIS TUM NOMINE FULGET
ÆTERNÆ DIGNUM POSTERITATIS OPUS
MDCCLXVIII
(Este templo de Maria chama-se Porta do Céu. Esta casa, tal como outrora o Príncipe de Cândia a edificou, foi destruída pelo sismo. Agora, no reinado de José I permanece renovada. Esta obra digna de eterna posteridade brilha, então, com o nome do Conde de Oeiras. 1768)
O interior, bem iluminado por janelas altas, é de nave única, com a capela-mor mais estreita. Do coro alto, resta o arco abatido, apoiado em pilastras de cantaria. De ambos os lados da entrada, destacam-se as pias de água benta em calcário vermelho.
Na nave, as pilastras e cornijas são em calcário rosa e branco. Os púlpitos quadrangulares são sóbrios e encimados por um friso em cantaria, que prolonga os ábacos das capelas adjacentes.
O arco triunfal, idêntico ao das capelas laterais, termina num frontão triangular, que será de finais do século XVIII, com admirável composição em estuque: dois medalhões encimados pela coroa real, cercados por decoração vegetalista, ladeados por um ramo de carvalho e uma palma. Um dos medalhões emoldura o escudo português; o outro a chave da Porta do Céu.
Ainda são visíveis as grelhas dos antigos confessionários de ambos os lados do arco triunfal.
Na capela-mor preside a veneranda imagem de Nossa Senhora da Porta do Céu.
Mantêm-se as amplas tribunas laterais que davam acesso ao convento.
Das antigas dependências conventuais, dispostas em U, apenas permanece o corpo do lado Sul, formando ângulo recto com a cabeceira da igreja, com as aberturas originais das antigas celas; e o espaço do primitivo claustro, actualmente pátio aberto para a via pública.
III . Nossa Senhora da Porta do Céu
A invocação de Nossa Senhora como Porta do Céu é muito antiga. No oriente cristão, o antigo ícone de Portaitissa do século I refere-se a uma imagem proveniente do Monte Athos na Grécia, que se divulgou pela Europa oriental, nomeadamente Polónia e Rússia.
A invocação Janua Coeli (Porta do Céu) fazia parte da original Litania do Loreto, aprovada em 1587, mas provavelmente anterior a essa data.
Em Portugal, o título de Nossa Senhora como Porta do Céu é pouco comum, sendo a Ermida de Nossa Senhora das Portas do Céu em Loulé, construída cerca de 1600, possivelmente o lugar mais antigo com esta invocação. Seguiu-se o convento franciscano em Telheiras (1632) impulsionado pelo notável príncipe de Cândia.
É uma invocação singular de Nossa Senhora, com referência litúrgica no Salve Porta da Antífona Ave Regina Coelorum. O título dado a Maria está associado particularmente ao momento da morte como intercessora dos moribundos.
Iconograficamente, a Virgem Maria é representada com o Menino ao colo sobre o braço esquerdo e, no caso do convento de Telheiras, com uma chave na mão, aludindo à sua intercessão como porta de entrada no céu.
A imagem da igreja de Nossa Senhora da Porta do Céu teria sido encomendada por D. João de Cândia “a um primoroso escultor, do qual, tinha notícia que havia nas Índias de Castela [América espanhola] ”, segundo Frei Agostinho de Santa Maria. Foi entronizada nesta igreja em camarim e trono de talha dourada. A chave de prata que a Virgem tinha na mão circulava entre as casas dos doentes da zona, sendo especialmente depositada nas mãos dos moribundos, para que Nossa Senhora lhes abrisse as portas do céu.
IV . D. JOÃO DE CÂNDIA (c. 1578 – 1642)
D. João, o Príncipe Negro, nasceu em Cândia, no interior da Ilha do Ceilão (actual Sri Lanka), por volta de 1578. Era filho de Yamsinghe Bandara, rei de Cândia, que procurou protecção junto dos portugueses ao ser expulso do seu reino em 1582.
Em 1588, o príncipe foi baptizado em Goa, sendo nomeado em 1591 herdeiro do reino que seu pai deixara à coroa portuguesa. Forçado a abandonar o local, devido à instabilidade política que reinava em Cândia, D. João foi levado – juntamente com seu primo D. Filipe de Ceitavaca – para Colombo e depois para Goa, sempre sob custódia dos religiosos franciscanos. Viveu cerca de quinze anos no Colégio dos Reis Magos, em Bardés, perto de Goa.
Em 1610, veio para Portugal, a seu pedido e sob protecção de Filipe II. Instalou-se inicialmente no convento de São Francisco, em Lisboa, recebendo do rei uma tença condigna com a sua pessoa. Cerca de 1611, recebeu ordens sacras. Posteriormente há notícia de ter residido num Palácio na Mouraria.
Por volta de 1625, adquiriu um terreno em Telheiras que será conhecido por Quinta do Príncipe. Nesse ano fundou a Irmandade de Nossa Senhora da Porta do Céu e do Glorioso São João Baptista, de que foi o primeiro Irmão e Juiz. Em 1626, renunciou aos seus direitos sobre os reinos de Cândia, Cota, Ceitavaca e Setecorlas, no Ceilão, recebendo do rei Filipe III mais de 4000 cruzados anuais em pensões eclesiásticas.
Mandou erigir em Telheiras uma igreja e um Oratório, sob a invocação de Nossa Senhora da Porta do Céu, destinando-o à convalescença dos religiosos franciscanos, devido ao clima ameno do local. Doou à igreja grande número de alfaias preciosas destinadas ao culto litúrgico.
Em 1632, ele próprio habitava numas casas contíguas à clausura, com a qual tinha comunicação interior, a fim de participar nas práticas religiosas.
Morreu em 1642, na casa da Mouraria, tendo sido, a seu pedido, sepultado na sua “hermida de Telheiras”. As duas pedras do túmulo original do Príncipe de Cândia encontram-se actualmente no Museu Arqueológico do Carmo, em Lisboa.
V . CEILÃO E AS ORIGENS DO CONVENTO
A ilha de Ceilão, a Taprobana da Antiguidade – actual Sri Lanka –, atraiu a atenção de Portugal desde a chegada de Vasco da Gama à Índia, ponto nevrálgico da navegação entre as duas partes do Índico.
O desembarque dos portugueses na ilha deu-se pela primeira vez em 1506, com a armada de D. Lourenço de Almeida (c. 1480-1508). A primeira Missa em terras de Ceilão foi celebrada por Frei Vicente, franciscano capucho.
Os Franciscanos tiveram um papel primordial na cristianização da ilha. Os missionários começaram o seu trabalho com o encorajamento do rei de Cota, D. João Dharmapala (1541-1597), que se baptizou, juntamente com a sua família, em 1556. Por sua morte, e não tendo herdeiros, doou o reino à coroa portuguesa.
O reino de Cândia – o reino das montanhas – era contudo palco de grande turbulência política. O rei Yamsinghe Bandara, expulso por adversários, procurou refúgio entre os portugueses. Em agradecimento pela protecção e por todos os benefícios recebidos, também deixou o seu reino à coroa de Portugal.
No começo do século XVII, praticamente todo o Ceilão estava sob o domínio da coroa portuguesa e a cristianização das povoações prosseguia, particularmente nas regiões costeiras. Apenas o reino de Cândia estava em conflito permanente.
Além dos Franciscanos, também os Jesuítas, os Agostinhos e os Dominicanos tiveram um papel importante na missionação da ilha; possuindo colégios anexos aos conventos, contribuíram sobremaneira para a educação e a rápida propagação da fé cristã no território.
REFERÊNCIAS
- LEMOS, Fernando Afonso Andrade e, O Convento de Telheiras, Olisipo, II série, nº 12 (especial) Março 2000.
- AAVV, Monumentos e edifícios notáveis do Distrito de Lisboa, Volume V, 4º tomo, 2ª parte, Lisboa, 2000.
- MANTAS, José Quintanilha (coord.), Monografia do Lumiar, Lisboa, Junta de Freguesia do Lumiar, 2003.
- JAYASINGHE, Sagara, “The Black Prince’s Chapel: An architectural record of the Church of Our Lady of the Gate of Heaven, Telheiras, Lisbon”. Oriente. Lisboa, Fundação Oriente, 2015, vol. 23, pp. 56-77.
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