A Farmacopeia de Frei João de Jesus Maria
A 6 de Abril de 1769, Frei João de Jesus Maria (1716-1795), monge boticário do mosteiro beneditino de Santo Tirso, assinava contrato com a prestigiada oficina de António Álvares Ribeiro Guimarães (1715-1774) para a impressão da Pharmacopea Dogmatica medico-chimica, e theorico-pratica. A obra foi publicada em dois volumes, em 1772, no Porto. Em 1777, estava finalizado o terceiro volume, que não chegou a ser editado.
Trata-se de uma publicação essencialmente dirigida a boticários, redigida no período de ouro das farmacopeias portuguesas, por um religioso beneditino, à sua custa impressa.
É dedicada a Frei Manuel Caetano de Loreto (1724-1797), Abade Geral da Congregação de São Bento E mais Monges desta Congregação de Portugal, e Provincia do Brasil.
A obra está dividida em dois volumes, o primeiro tomo sobre as principais matérias-primas medicinais e compostos medicamentosos. O segundo tomo consta de três tratados: Do Reyno Animal, Das Agoas Mineraes, e Reyno Mineral e Do Reyno Vegetal.
O terceiro tomo, que não chegou a ser editado, é um precioso manuscrito, obra singular pelo patente interesse nas plantas de origem americana, nomeadamente brasileiras, e pelo seu potencial no desenvolvimento das práticas medicinais. Intitulado Historia Pharmaceutica das plantas exóticas, constitui uma adenda aos dois primeiros volumes. Segundo o Catálogo dos Escritores Beneditinos da Congregação de Portugal elaborado por Frei Francisco de São Luís, levou entre oito a nove anos a ser realizado. A data de 1777 consta como sendo a data da sua aprovação. Esteve na Livraria da Botica do Mosteiro de São Bento da Saúde – actual Assembleia da República – até ser doado em 1837 à Sociedade Farmacêutica Lusitana por António José Nogueira.
A Pharmacopea Dogmática destaca-se no conjunto das obras do mesmo teor publicadas ao longo do século XVIII e nas décadas seguintes, pela importância dada ao cuidado dos doentes nos mosteiros, tal como prescrevia a regra beneditina. No prólogo, Frei João de Jesus Maria realça a importância da botica como instrumento de cura dos doentes e necessitados, sinal patente da acção da Graça de Deus perante as “incertezas das cousas naturaes”. O verdadeiro boticário seria aquele que, além da sua competência, “mostrar em todas as suas acçoens o sempre respeitado Temor de Deos na completa observancia dos Divinos Preceitos, como tambem nos da Santa Igreja” e não se desviar dos valores cristãos no seu ofício.
A obra foi pouco divulgada e ainda permanece quase desconhecida. O Diccionario Bibliographico Portuguez de Innocencio Francisco da Silva (1810-1876) registou que Frei João de Jesus Maria foi boticário e administrador da botica do Mosteiro de Santo Tirso, mas que a sua “obra é hoje de todo esquecida, e de que não tenho visto algum exemplar, para dar aqui a seu respeito mais miúda indicação” (1). Maximiliano Lemos (1860-1923), na História de Medicina em Portugal (1899) fez uma breve referência à Pharmacopea Dogmática e ao seu autor “certamente um pharmaceutico hábil e erudito, e que no seu volumoso tratado compendiou grande numero de noticias sobre a colheita e preparação das substancias medicinaes” (2).
O autor: Frei João de Jesus Maria
Frei João de Jesus Maria nasceu em São João de Souto (Braga) em 1716. Estudou Humanidades com os Padres da Companhia de Jesus na Galiza, tendo prestado as Provas Finais na Universidade de Coimbra em 1741.
Em 1744, entrou como noviço no mosteiro beneditino de Refojos de Basto, onde começou por edificar a botica. Fez a sua profissão em 1745 no mesmo mosteiro.
Em 1746, fundou a botica do Mosteiro de Santo Tirso, ocupando também o cargo de primeiro administrador. Em 1769, fez contrato no Porto com António Álvares Ribeiro Guimarães para a impressão da Pharmacopea Dogmática, publicada em 1772. Em 1777 foi aprovada a publicação do terceiro tomo, que não chegou a ser impresso. Faleceu no Mosteiro de Santo André de Rendufe em 1795.
Frei João de Jesus Maria foi o grande impulsionador da instituição de boticas nos mosteiros da Ordem. Estava ciente da sua importância não só para as comunidades beneditinas como para as localidades envolventes; a botica de cada mosteiro desenvolveu-se como especial escola de boticários nas gerações seguintes.
A sua formação em Coimbra proporcionou-lhe um sólido saber transmitido pelos clássicos. Tinha conhecimento das farmacopeias que estavam a ser publicadas desde os finais do século XVII. Durante o périplo pelos mosteiros da Congregação, consolidou e actualizou os seus estudos, tornando-se o boticário mais notável da Ordem de São Bento e uma referência na arte e ciência da farmácia.
História da Farmacopeia
As farmacopeias – do grego pharmakon (droga, fármaco) e poieo (fazer, criar) - são livros que têm regulado, ao longo dos séculos, a produção e técnicas de manuseamento dos medicamentos. Elaboradas inicialmente por boticários experimentados, compilavam o conhecimento existente sobre drogas, fórmulas e processo de fabrico dos fármacos. Desenvolveram-se principalmente nos séculos XVII e XVIII.
Em Portugal, até ao século XVIII, os boticários preparavam os medicamentos segundo as indicações dos Dispensatórios ou dos Antidotários, bem como de algumas farmacopeias estrangeiras.
As farmacopeias em Portugal desenvolveram-se principalmente durante o século XVIII, por iniciativa individual, para responder às necessidades decorrentes no atendimento aos doentes. Em 1704, foi publicada a primeira farmacopeia portuguesa – Pharmacopea Lusitana – seguida de várias outras, ao longo do século XVIII, em língua vernácula e dirigidas a boticários, entre elas a Pharmacopea Dogmática (1772).
A partir dos finais do século XVIII passaram a ser escritas por indicação e tutela do Estado. A primeira farmacopeia oficial portuguesa foi publicada em 1794 - Pharmacopea Geral para o Reino e Domínios de Portugal – actualizando-se continuamente até ao presente.
A botica do Mosteiro de Refojos
No mosteiro de Refojos de Basto existiria, como em todos os mosteiros beneditinos, um local para cuidar os monges doentes, segundo a Regra. Há notícia em 1629 de uma enfermaria, que deveria também possuir uma pequena cozinha anexa para a elaboração de xaropes, águas destiladas e outros medicamentos necessários para tratamento de alguma maleita, mas sem boticário.
A botica de Refojos de Basto foi criada em 1745 por Frei João de Jesus Maria. Foi a primeira verdadeira botica (com boticário residente) dos mosteiros beneditinos. Estava localizada próximo da portaria, numa sala que servia de hospedaria, com cozinha anexa e de fácil acesso ao exterior, permitindo a frequência pela população local. A botica possuía também uma Livraria própria, independente da biblioteca do mosteiro.
Refojos de Basto ficava situado num lugar isolado, no interior do Minho. A criação da botica neste local significou um marco importante não só para os monges como para toda a comunidade envolvente, pois seria o único centro médico da região. Destacou-se pelos serviços que prestava, e pela escola de formação de boticários que a sua presença promoveu.
Em Portugal, apesar do desenvolvimento de hospitais durante o século XVIII, os cuidados de saúde eram ainda esparsos ou quase inexistentes em numerosas regiões, com dificuldade de conseguir boticários com a formação adequada.
A espiritualidade beneditina realçava o acolhimento a todos e de forma particular aos doentes. Os mosteiros desenvolveram uma forma de prestar serviço às populações locais, sendo a botica do mosteiro, em frequentes casos, o único ponto de auxílio na região.
A relevância da botica de Refojos de Basto, com a implementação de uma escola de boticários na região, estendeu-se mesmo após a extinção do mosteiro em 1834 e a consequente expulsão dos religiosos, ficando registados na memória colectiva os inumeráveis e constantes serviços prestados, em grande parte de forma gratuita.
- SILVA, Innocencio Francisco da, Diccionario Bibliographico Portuguez, tomo terceiro, Lisboa, Imprensa Nacional, 1859, pp.387-388.
- LEMOS, Maximiliano, História da Medicina em Portugal, Volume I, Lisboa, Manoel Gomes Editor, 1899, p. 190.
REFERÊNCIAS
- SILVA FILHO, Wellington Bernardelli, Entre as mezinhas lusitanas e plantas brasileiras: iatroquímica, galenismo e flora medicinal da América portuguesa do século XVIII nas farmacopeias do frei João de Jesus Maria, Lisboa, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Dissertação de doutoramento em História e Filosofia das Ciências, 2017.
- PITA, João Rui, BELL, Victoria, Da Pharmacopea Lusitana à Farmacopeia Portuguesa: uma viagem pela história do livro farmacêutico (sécs. XVIII-XXI). In: ANDRADE, António Manuel Lopes; CARRINGTON, Maria Cristina (orgs.). Do Manuscrito ao livro impresso. Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2019, p. 279-311.
- RAMOS, Anabela, Assistência na doença: as boticas monásticas beneditinas no século XVIII, Coimbra, Universidade de Coimbra, Centro de Estudos Interdisciplinares, 2021.
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