A Ermida da Penha, Macau
Nesta página:
I . História
II . Descrição
III . Nossa Senhora da Penha de França: história do culto e iconografia
IV . A Nau do Trato
V . O Mosteiro de Nossa Senhora Estrela da Esperança
I . HISTÓRIA
Em 1620, na viagem da Nau do Trato de Macau para o Japão, um dos navios que compunha a frota, São Bartolomeu, capitaneado por Jorge da Silva, evitou milagrosamente ser capturado pelos holandeses no estreito da Formosa.
Aos 28 dias do mez de Julho d’ Era de 620 indo fazendo viagem do Japão, o Pataxo Sm. Barthollomeu, de que era Capitão Jorge da Silva, às cinco horas da manhã nos achamos com uma Nao Hollandeza e dalli a pouco apparecerão três Navios mais da nossa companhia, e o dito Capitão Jorge da Silva mandou logo aparelhar o ditto Pataxo, e por-se em armas (…) e por o nosso navio não ser muito ligeiro, se chegou a nós a tiro de bombarda, (…) e vendo-nos neste tempo em tanto aperto, e necessidade, e sem remedio nenhum mais, que morrermos todos, como já estavamos determinados de nos queimarmos, tratamos de pedir á Virgem Nossa Senhora de Penha de França, que nos accudisse, e fosse nossa Intercessora diante do seu Benditto Filho para que nos livrasse, e ajudasse contra os dittos nossos inimigos (1).
A tripulação fez voto de mandar edificar em Macau uma ermida sob invocação de Nossa Senhora da Penha de França, padroeira dos navegantes, prometendo como esmola parte dos rendimentos da mercadoria.
Esta é a origem da Ermida da Penha, doada ao Convento da Ordem de Santo Agostinho de Macau – Ordem afecta à invocação em Portugal.
A Capela foi edificada sobre o monte do baluarte de Nossa Senhora de Bomparto (1) dentro do forte depois chamado da Penha de França, segundo consta no Auto de Posse da Ermida pelos Agostinhos, lavrado em 29 de Abril de 1622. A primeira Missa foi celebrada nesse mesmo dia por Frei Estevão de Vera Cruz († 1646), prior do convento.
A Ermida beneficiava essencialmente das esmolas dos navegantes que aí faziam as suas promessas. Segundo a tradição, os barcos portugueses davam uma salva ao aproximar-se de Macau, respondendo de igual modo os sinos da ermida; e, ao desembarcar, os navegantes iam, com as suas famílias, à Capela da Penha agradecer e oferecer esmolas - prometidas muitas vezes durante os perigos em alto mar.
A carreira do Japão terminou em 1639, mas ainda em 1685, Frei João das Chagas, prior de Santo Agostinho, convidava os fiéis a subirem à ermida e rogar pelo bom sucesso da viagem da fragata São Paulo ao Japão – na esperança da reabertura do comércio com o país do Sol Nascente, considerado essencial para a sobrevivência de Macau.
A Ermida da Penha esteve associada às perturbações religiosas do início do século XVIII. Entre 1707 e 1709, nela se refugiaram os padres dominicanos espanhóis expulsos da China, no contexto das Controvérsias sobre os Ritos Chineses. Também na década de 1780, o vigário da Penha pediu autorização para serem sepultados, nos terrenos da capela, moradores naturais da Arménia, com significativa comunidade em Macau.
A Ermida, propriedade do mosteiro dos Agostinhos, foi entregue ao Senado, por efeito do decreto de extinção das ordens religiosas de 1834, mantendo-se o culto a cargo do pároco de São Lourenço.
Após ter ficado muito arruinada pelo tufão de 5 de Agosto de 1835, um grupo de cerca de quarenta moradores requereram ao Senado a sua administração. A igreja foi reconstruída em 1837, em conjunto com o Paço Episcopal, e confiada aos moradores em 1846, ficando desde então sob a administração e jurisdição da autoridade eclesiástica.
Em 1892, o templo foi ampliado, depois de demolido o antigo baluarte. Neste período a festa de Nossa Senhora da Penha, celebrada em Maio era um das principais festividades religiosas de Macau.
Em 1909, foi erigida no adro da igreja, a estátua da Imaculada Conceição por iniciativa do Padre António Maria Alves (1866-1944), director das Congregações Marianas e das Filhas de Maria, em comemoração do cinquentenário das aparições de Nossa Senhora de Lurdes. Num terreno existente junto ao mesmo adro, doado por José Maria de Castro e sua mulher D. Casimira Fernandes Basto, família proeminente de Macau e Hong Kong, foi construída em 1908, a Gruta de Nossa Senhora de Lurdes, por iniciativa de D. João Paulino de Azevedo e Castro (1852-1918), bispo de Macau, que ali foi sepultado – mais tarde (1923) trasladado para a Vila das Lages do Pico nos Açores, sua terra natal. No interior da gruta foi colocada uma estátua em mármore de Nossa Senhora de Lurdes oferecida por D. Vittória Spínola Pallavicino, natural de Génova.
Em 1929, iniciou-se a tradicional Procissão de Nossa Senhora de Fátima com percurso a finalizar na Capela da Penha.
Na década de 1930, começou a reconstrução e ampliação da ermida, com grande torre sineira, e a residência do Bispo, origem da configuração actual do monumento, por iniciativa do Bispo Cardeal D. José da Costa Nunes (1880-1976). Foi solenemente inaugurada no dia 13 de Outubro de 1935.
Na década de 1960, iniciaram-se os estudos para a valorização da Ermida da Penha, no contexto da defesa e valorização do património artístico e histórico de Macau.
A residência episcopal manteve-se no local até à sua mudança junto à catedral, no início do bispado (1976), de D. Arquimínio Rodrigues da Costa (1924-2016).
Em 2012, foi fundado no antigo Paço, o mosteiro feminino da Ordem Cisterciense da Estrita Observância (Trapistas).
II . DESCRIÇÃO
A Ermida de Nossa Senhora da Penha está situada na Colina da Penha – ou Monte do Bispo -, um dos pontos mais elevados de Macau, com bela vista panorâmica sobre a cidade e a vizinha ilha da Taipa.
Acede-se ao templo por meio de percurso ascendente, anteriormente amuralhado. Todo o conjunto está rodeado por um sólido muro edificado em 1935.
No amplo adro que antecede a igreja, destaca-se a grande estátua da Imaculada Conceição, erguida sobre coluna, com inscrição:
Deiparae Immaculatae ad Lourdem coelitus adparenti anno quinquagesimo primo redeunte Urbs Macau pon. cur.
A cidade de Macau erigiu este monumento à Imaculada Mãe de Deus no primeiro cincoentenário de sua aparição em Lurdes.
Na grande fachada da igreja, neogótica, preside a imagem de Nossa Senhora da Penha. O portal, com várias arquivoltas – à semelhança dos portais medievais -, está encimado por óculo em vitral, e ladeado por janelões também com vitrais. Destaca-se a lápide com inscrição: CONSTRUÍDA EM 1934-1935 EM SUBSTITUIÇÃO DA PRIMITIVA CAPELA EDIFICADA EM 1622 E REEDIFICADA EM 1837
Do lado direito, ergue-se a grande torre sineira, com o padrão português da Cruz de Avis nos vários ângulos, e pináculo terminando com a esfera armilar.
Do lado esquerdo, encontra-se a antiga residência episcopal, edificada também em 1935, e onde actualmente se encontra instalado o mosteiro de Nossa Senhora Estrela da Esperança de Religiosas da Ordem Cisterciense da Estrita Observância (Trapistas).
O interior é relativamente simples e bem iluminado pela luz filtrada pelos vitrais.
A nave é percorrida pelas catorze estações da Via-sacra, um notável conjunto de baixos-relevos.
Tem dois altares laterais dedicados a Santo Cristo Crucificado e a Santa Bárbara, padroeira dos artilheiros, invocação talvez referente ao forte primitivo.
Na capela-mor, preside a imagem de Nossa Senhora da Penha, de grande devoção dos fiéis, ladeada por anjos tocheiros.
Na parede fundeira destaca-se o notável vitral com inscrição ABBA PATER, com singular representação da Virgem Maria e a Santíssima Trindade.
No exterior, encontra-se a Gruta de Nossa Senhora de Lurdes, réplica de Massabielle, de grande devoção local, com acesso por ampla escadaria dupla em pedra.
III . NOSSA SENHORA DA PENHA DE FRANÇA: HISTÓRIA DO CULTO E ICONOGRAFIA
A invocação Senhora da Penha de França está ligada à descoberta de uma imagem da Virgem Maria em 1434, soterrada no cume de uma montanha perto de Cidade Rodrigo, na província de Salamanca, local chamado Peña de Francia.
Em Portugal, a devoção iniciou-se com o escultor António Simões que, em Alcácer Quibir (1578), prometeu a Nossa Senhora que, se voltasse à Pátria, lhe dedicaria imagens de diferentes invocações. Ao regressar, cumpriu a promessa, dando o título de Nossa Senhora da Penha de França à última imagem. O Santuário de Nossa Senhora da Penha de França em Lisboa ficou a cargo da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho.
A devoção popular desenvolveu-se rapidamente. A partir de 1599, alguns acontecimentos vieram intensificar o culto. Nesse ano, D. Jerónimo Coutinho - Capitão da Armada da Carreira da Índia -, com a ameaça da peste que deflagrou nos navios em pleno alto mar, recorreu a Nossa Senhora da Penha de França. A invocação ficou desde então associada aos mareantes em Portugal e nos países de expansão portuguesa. Era comum os navios levarem em cada viagem uma imagem da Senhora da Penha de França, invocada em situações de perigo no alto mar.
Em Macau, a devoção intensificou-se a partir de 1620, quando o navio São Bartolomeu da carreira do Japão foi salvo dos ataques de uma frota holandesa, pelo recurso à intercessão da “padroeira dos mareantes”.
A tripulação fez voto - tal como uns anos antes, na viagem da carreira da Índia de D. Jerónimo Coutinho – da edificação de uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Penha de França, na Cidade do Nome de Deus de Macau.
A Ermida foi entregue pelos mareantes à Ordem de Santo Agostinho, que possuía em Macau, já nesse período, o convento de Nossa Senhora da Graça.
É provável que na Ermida da Penha tenha havido ex-votos de mareantes, tal como no Santuário de Lisboa. Segundo o comandante Jayme de Inso, haveria um ex-voto datado de 1792 oferecido a Nossa Senhora da Penha de França de Macau com a seguinte legenda: O Senhor Cappitão de Mareguerra Joaquim Carneiro Machado, Irmão da Ordem dos Eremitas Augustinianos offereceo esta Alampada á N. S. da Penha de França de Macao Anno de 1792 (2).
Iconograficamente, Nossa Senhora da Penha de França é representada habitualmente com coroa, ceptro na mão direita, e com o Menino – também coroado – no braço esquerdo.
A Festa litúrgica é celebrada a 8 de Setembro.
IV . A NAU DO TRATO
A chegada dos portugueses às terras do Sol Nascente em 1543 marcou o início da Rota do Japão. O comércio era muito rentável apesar dos riscos inerentes à viagem, nomeadamente os frequentes naufrágios e a pirataria.
Em 1550, foi criada uma viagem anual que passou a ser monopólio da coroa portuguesa, a cargo de um capitão-mor. A partir de 1557, Macau passou a ser paragem obrigatória na rota da Nau do Trato – o grande navio negro que fazia a ligação comercial com o Japão.
Macau transformou-se também num importante centro de intercâmbio cultural entre o ocidente e o oriente, com exclusividade nesta rota, uma das maiores fontes de rendimento para Macau.
Nos finais do século XVI a rota era já uma carreira anual regular. A nau saía de Goa, aportava em Malaca, e seguia para Macau, onde fazia uma paragem aguardando a monção favorável para seguir para o Japão.
Nos inícios do século XVII, começaram a surgir dificuldades na realização da viagem, sobretudo a partir da chegada de outras potências europeias, nomeadamente os holandeses. No primeiro ataque a Macau, em 1603, os flamengos assenhorearam-se de toda a mercadoria que estava a ser preparada para seguir para o Japão. Nos anos seguintes, os ataques tornaram-se constantes neste trajecto.
A relativa facilidade com que os holandeses capturavam as grandes naus portuguesas ricamente carregadas nos mares da China, determinou que se repensasse a forma de transporte da mercadoria. A partir de 1618, a prática de enviar todas as mercadorias numa única embarcação foi substituída pela divisão da carga por vários navios, para tentar minorar os prejuízos resultantes dos ataques inimigos. A grande Nau foi substituída por navios mais ligeiros – patachos, navetas, galeotas - na ligação entre Macau e o porto de Nagasáqui. É neste contexto que se realizou a viagem do capitão-mor Jerónimo de Macedo de Carvalho em 1620, com um conjunto de navios, entre os quais o patacho capitaneado por Jorge da Silva.
O comércio entre Macau e o país do Sol Nascente terminou definitivamente em 1639, dando fim à prestigiada rota do Japão.
V . O MOSTEIRO DE NOSSA SENHORA ESTRELA DA ESPERANÇA
No antigo Paço Episcopal de Macau, instalou-se em 2009, uma comunidade de religiosas da Ordem Cisterciense da Estrita Observância – OCSO -, comumente conhecida como Trapistas.
A comunidade foi fundada a partir do mosteiro feminino de Gedono na Indonésia, que por sua vez radica no mosteiro de Vitorchiano (Itália), casa-mãe de várias fundações na Ásia.
Em 22 de Junho de 2009, partiram de Gedono para Macau as primeiras religiosas, que iniciaram a vida monástica na antiga residência episcopal anexa à histórica Ermida da Penha, por cedência da Diocese de Macau. A fundação canónica do mosteiro realizou-se a 15 de Abril de 2012, sob invocação de Nossa Senhora Estrela da Esperança.
Em 26 de Janeiro de 2026, a comunidade foi solenemente elevada a Priorado, sendo eleita a Madre Caterina Mazarelli como primeira prioresa.
A Ordem contemplativa segue a espiritualidade beneditina, segundo a Regra de São Bento, sob o lema Ora e Labora – reza e trabalha. Em Macau, constitui um singular local de referência de toda a população macaense.
- Memória sobre a Ermida da Penha de França, O Macaísta Imparcial, Vol. I, Nº 33, 29 de Setembro de 1835, Macau, p. 132-134. https://purl.pt/32523/2/
- INSO, Com. Jayme de, Nossa Senhora da Penha de França na Evocação Marítima, Olisipo Nº 108, Out. 1964, p. 170.
REFERÊNCIAS
- TEIXEIRA, Manuel, The Japanese in Macao in XVIth and XVIIth Centuries, Sep. Bol. Instituto Luís de Camões 8, Macau, 1974. https://www.icm.gov.mo/rc/viewer/20017/984
- BOXER, Charles Ralph, The great ship from Amacon, Macau, Centro de Estudos Marítimos de Macau, 1988.
- SILVA, Beatriz Basto da, Cronologia da História de Macau, Macau, Direcção dos Serviços de Educação, 1992-1993.
- VALENTE, Maria Regina, Igrejas de Macau – Churches of Macau, Macau, Instituto Cultural de Macau, 1993.
- MARQUES, Oliveira (Dir.), História dos Portugueses no Extremo Oriente, Lisboa, Fundação Oriente, 1998-2003.
- MARIZ, Vera Félix, A “memória do império” ou o “império da memória” a salvaguarda do património arquitectónico português ultramarino (1930-1974), Dissertação de Doutoramento, Lisboa, Universidade de Lisboa, 2016.
- TEIXEIRA, Vítor, Capela de Nossa Senhora da Penha, O Clarim, 26 de Março de 2025. https://www.oclarim.com.mo/local/capela-de-nossa-senhora-da-penha/
FOTOGRAFIA
- TERESA SILVA
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