A Sé de São Tomé e Príncipe
Nesta página:
I . História
II . Descrição
III . Nossa Senhora da Avé Maria
IV . A Diocese de São Tomé
V . São Tomé: culto e iconografia
I . HISTÓRIA
A vila de São Tomé começou a ser edificada no final do século XV, numa das amplas baías do Nordeste da ilha.
A primeira capela remonta ao início da povoação, mandada edificar provavelmente pelo donatário Álvaro de Caminha (1493-1499), (…) levantaram uma capela dedicada a Nossa Senhora da Avé Maria e S. Tomé, por ser no dia da festa deste santo que a ilha foi descoberta (1). A igreja de Santa Maria ou de Nossa Senhora da Avé Maria estava situada junto à posteriormente designada Baía Ana de Chaves, inserida no primitivo núcleo da povoação, do qual faziam parte também a Torre do Capitão e a igreja e Hospital da Misericórdia.
Álvaro de Caminha mandou construir igualmente o convento de São Francisco, junto à capela. Apesar da indicação expressa de serem terminados após a sua morte, os edifícios ficaram inacabados.
Uma nova igreja, mais ampla, dedicada a Nossa Senhora da Graça foi construída, no início do século XVI, junto à primitiva capela, aproveitando provavelmente os alicerces da primeira.
A igreja foi crescendo em importância à medida que a povoação se desenvolvia. Em 1519 El rei D. Manuel (1469-1521) fez graça e mercê à confraria da Virgem Nossa Senhora da Graça da igreja matriz desta vila.
Em 1534, a igreja matriz foi elevada a catedral, sede da nova diocese de São Tomé. D. João III (1502-1557) mandou provir a Sé de todos os objectos e alfaias litúrgicas, de acordo com o extenso rol enviado ao tesoureiro Francisco de Morais (carta régia de 4 de Fevereiro de 1553): Mando-vos q compreis e façais fazer pera a Sé da Cidade de São Tomé as cousas abaixo declaradas (…) um pontifical de damasco carmesim (…), dalmáticas (…) e estolas, manípulos e amitos (…) E oito vestimentas de zarzaguania (sic)(*) com suas aluas de Ruão; (…) E seis sobrepelizes de Ruão pera os moços do coro. E uma dúzia de corporais de holanda com suas guardas de muito bom Ruão. E hum véu de seda pera se cobrir a custodia (…). E referindo-se ao arranjo da capela-mor: lhe comprareis também cinco mil telhas e seis moios de cal pera se concertar a capela da dita sé, por estar muito danificada (2).
Também o cardeal D. Henrique (1561), tendo em conta a ausência de produtos da terra necessários para as celebrações litúrgicas, mandou prover anualmente à Sé duas arrobas de cera, além das outras duas que tinha, oito alqueires de azeite para a lâmpada do altar-mor e quinze alqueires de farinha para as hóstias e vinte almudes de vinho para as missas (3).
Em 1576, D. Sebastião (1554-1578) determinou construir uma nova Sé catedral: mandou El-Rei abrir alicerces da imensa Igreja Catedral de N. Senhora da Graça (1). As obras continuaram no reinado de Filipe II (1527-1598), mas foram abandonadas em 1585, tendo sido levantado um frontispício improvisado de madeira.
A invasão holandesa em 1599 teve como consequência o saque e incêndios das igrejas, e a profanação das imagens sagradas, nomeadamente da Sé catedral.
Durante a nova investida e ocupação da ilha pelos holandeses entre 1641 e 1644, os cónegos da Sé na fuga para o mato com os moradores da cidade, conseguiram retirar o sacrário e a veneranda imagem de São Tomé e as suas relíquias, não conseguindo salvar os cartórios. Os holandeses utilizaram a Sé catedral como lugar para os seus ofícios religiosos. Nela foram também sepultados as primeiras vítimas da malária que acometeu os invasores, entre eles o próprio almirante Cornelis Jol (1597-1641).
Na segunda metade do século XVII, a Sé encontrava-se com grande falta de clero. Segundo carta ao rei em (16 de Março de 1662), o governador Pedro da Silva achou a See daquella Ilha muito falta de Ministros Eclesiásticos por naõ hauer nella mais que os doutor Rodrigo Lopes, o Thesoureiro mor Gaspar de Almeyda e o Cónego João Martinz Mouzinho, de maneira que de prezente estaõ uagos naquella See dezaseis lugares, com que aquella Christandade uem a padecer grande falta na administração spiritual e está arriscada a de todo naõ hauer quem acuda ás obrigações precisas daquelle Cabido (4).
Sucederam-se as petições de envio dos ornamentos, paramentos, livros, alfaias e outros objectos sagrados necessários ao culto divino, dificilmente repostos. Também a falta de Bispo neste período se fez sentir, com constantes quezílias entre os cónegos da Sé e a administração civil, chegando a catedral a encerrar durante os conflitos (1683-1684).
Em 1705, há referência de que a fachada da Sé, em madeira, se encontrava muito arruinada. Em 1709, o novo saque da ilha por corsários franceses, foi particularmente danoso para a Sé.
A perda dos cartórios e registos, por efeito dos constantes saques de corsários, colocaram em dúvida a invocação da Sé. O Bispo D. Fr. João de Sahagun (c. 1722), Não havendo notícia do orago da Sé mas só do padroeiro de toda a Ilha que é o Apóstolo S. Tomé, propôs que se aceitasse por orago da Sé desta cidade de S. Tomé, a Virgem Nossa Senhora da Graça, sendo definido por consentimento de todos (5). O Bispo fixou o dia Dominica infra octava da Natividade da Senhora para se fazer a sua festa com procissão solene.
No final do século XVIII, a Sé estava muito arruinada e desconjuntada. No dia 4 de Junho de 1814, desabou a cobertura e o frontispício da igreja. A reconstrução do edifício foi realizada graças aos esforços de Raimundo da Cunha Matos (1776-1839), à data possivelmente provedor da Fazenda e feitor da Alfândega, do vigário Frutuoso de Brito Porto e do capitão João Viegas de Abreu. A renovada igreja catedral tinha fachada com frontão triangular ladeado por duas torres com três portais, conjunto que perdurou até aos anos 40 do século XX.
Em 1863, iniciaram-se obras de reparação com fundos obtidos por subscrição pública, mas em 1866 encontrava-se de novo em ruínas. Nos anos seguintes esteve muitas vezes fechada e até utilizada como depósito de materiais de obras públicas.
Entre 1937 e 1944, foi realizada uma grande campanha de obras promovida pelo governador Ricardo Vaz Monteiro (1891-1975) reformulando quase totalmente a Sé. Foram realizadas diversas intervenções nomeadamente: a alteração da fachada, o alteamento das duas torres e das paredes laterais da igreja, a transformação da única nave existente em três, a construção da abóboda central e das abóbodas laterais, a pavimentação das naves e das capelas laterais, a construção de um novo coro em substituição do antigo que ameaçava desabar….
As obras não ficaram terminadas. Em 1948, referia-se que a Sé estava ainda grandemente necessitada de obras.
Em 1949 / 1950, quando da realização de obras de urbanização por detrás da Sé, foram encontrados vestígios de uma capela – provavelmente a primitiva capela de Nossa Senhora da Avé Maria – bem como lajes sepulcrais com inscrições dos finais do século XV e princípios do século XVI.
Uma segunda campanha de obras realizou-se entre 1959 e 1962, coincidente com a chegada à ilha do arquitecto Luís Benavente (1902-1993), no contexto do restauro dos principais monumentos históricos de São Tomé e Príncipe, nomeadamente na capela-mor. As obras foram dirigidas por José Augusto Simões.
Em 1967, de acordo com as determinações emanadas pelo Concílio Vaticano II, foi remodelado o altar-mor, de modo a permitir a celebração coram populo.
Cerca de 1970, foi colocado o lambril azulejar que cobre parcialmente as paredes laterais das naves, no contexto das comemorações do V Centenário da Descoberta das Ilhas de São Tomé e Príncipe.
Ainda em 2019, realizaram-se algumas reformas na Sé, com a ajuda dos fiéis, como a alteação do presbitério e a colocação de um ambão novo em mármore. A Sé foi reaberta solenemente no dia 30 de Agosto de 2020.
II . DESCRIÇÃO
A Sé Catedral de Nossa Senhora da Graça está situada no núcleo histórico da cidade de São Tomé, em amplo espaço, acompanhando a suave curvatura da Baía de Ana de Chaves.
Um grande adro frente á igreja, tem desenhada a Rosa-dos-Ventos, realçando o grande monumento da Sé.
Destaca-se a escadaria que rodeia frontal e lateralmente o edifício, e dá acesso ao templo.
A fachada da igreja tem parte central ladeada pelas duas torres sineiras, anteriormente mais baixas, terminando em coruchéu.
O pórtico, também resultante das intervenções realizadas em meados do século XX, é redondo, com várias arquivoltas de volta perfeita. No segundo piso, o conjunto de longas janelas também de arco redondo iluminam o coro.
O interior é amplo e muito iluminado, com nave central e duas naves laterais.
À entrada do templo, encontra-se o Baptistério, com uma antiga pia baptismal, provavelmente do século XVII (?). Na parede frontal está um painel de azulejo representando o Baptismo de Jesus, da notável Fábrica do Outeiro de Águeda (Portugal), assinado, bem como um lambril também de azulejo nas paredes laterais.
Um lambril de azulejo azul e branco, de motivos florais, percorre as paredes das naves laterais, acrescentando iluminação ao interior. A série de Via Sacra, de origem madrilena, foi colocada também nas mesmas campanhas do século XX.
No cruzeiro, encontra-se a Capela do Santíssimo Sacramento, com imagem do Sagrado Coração de Jesus (da Casa Fânzeres, Portugal) e altar com legenda TV ES PETRVS ET SVPER HANC PETRAM AEDIFICABO ECLESIAM MEAM (Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, Mt 16, 18).
Na capela lateral do lado oposto, preside uma admirável imagem de Nossa Senhora das Dores. Neste espaço encontra-se um pequeno mostruário de Arte Sacra.
O arco cruzeiro precede a capela-mor, com legenda na parte superior AVE MARIA GRATIA PLENA - alusiva à invocação da igreja.
Na capela-mor, destaca-se o retábulo com pintura representando A Anunciação, da Casa Fânzeres (Portugal), ladeado por dois nichos com as venerandas imagens de São Tomé, padroeiro da Diocese e Nossa Senhora da Avé Maria (?). No topo, destaca-se o painel azulejar representando A Santíssima Trindade, também da Fábrica Outeiro de Águeda.
O coro-alto, igualmente resultante das intervenções de meados do século XX, é amplo e acompanha toda a largura da igreja.
III . NOSSA SENHORA DA AVÉ MARIA
Nossa Senhora da Avé Maria foi a invocação da primitiva igreja da povoação de São Tomé.
Trata-se de uma peculiar invocação mariana da capela iniciada por Álvaro de Caminha cerca de 1493. O costume português de dar como orago Santa Maria à primeira igreja de um lugar, teve em São Tomé esta particularidade de se acrescentar da Avé Maria, expressão de raiz evangélica na Anunciação e que todos os fiéis invocam desde os primeiros tempos do cristianismo.
A primitiva capela, no núcleo histórico, não foi terminada, explicando-se assim a sua decadência e abandono, levantando-se nova igreja depois invocada como Nossa Senhora da Graça, a pouca distância da anterior.
No Santuário Mariano, há referência à imagem de Nossa Senhora da Avé Maria, que teria tido origem na devoção de Manoel da Costa Nogueira, que foi para aquela ilha com algum ofício ou ocupação (…), com grande devoção com este título, porque achando-se em hum grande perigo de vida, ou fosse doença, ou outro trabalho na terra, ou mar, que já não consta (…), por voto mandou fazer aquela imagem (6).
A imagem foi colocada na capela original, de onde transitou para a nova Sé em 1580.
A sua festividade, segundo o Santuário mariano, era a maior, celebrada na catedral. É tida pelos moradores daquela ilha em grande veneração e celebram com novena cantada, que se lhe faz antes da dominga infraoitava da sua festividade (em oito de setembro) por ser este o dia do seu santíssimo nome e nele se faz uma aparatosa festa com o Senhor manifesto todo o dia e com dois sermões de manhã e de tarde (6).Tinha uma grande Irmandade que a servia com fervorosa devoção.
A imagem de escultura em madeira, ornada com muita perfeição, tinha cerca de cinco palmos de altura e está com as mãos levantadas. Tinha uma rica coroa de ouro natural daquela mesma Ilha (6), segundo constava. Estava colocada no altar-mor no meio do retábulo, dentro de um nicho.
Na descrição do Padre Francisco Vaz, em 1989 - San Men Dêçu – A Senhora Mãe de Deus em S. Tomé e Príncipe -, é referido o altar de Nossa Senhora da Avé Maria, num dos lados do cruzeiro.
IV . A DIOCESE DE SÃO TOMÉ
Nos inícios do século XV, Portugal iniciou a expansão marítima ligada a um claro objetivo de extensão da fé cristã. Após as primeiras descobertas, D. Afonso V, em Janeiro de 1454 entregou à Ordem de Cristo a administração e jurisdição espiritual de todas as costas, ilhas e terras conquistadas e a conquistar da Guiné à Etiópia, da mesma forma que a exercia em Tomar, doação confirmada pelos Papas Nicolau V e Calisto III, decretando as ditas ilhas, terras e lugares sejam nullius dioceses. Após a descoberta e o povoamento das ilhas de São Tomé, Príncipe, Ano Bom e outras ilhas do Golfo da Guiné, no final do século XV, estas ficaram portanto sujeitas na parte espiritual ao Vigário de Tomar.
Em 1486, desembarcaram os primeiros povoadores junto à Ponta Figo, onde foi construída a primeira capela, próximo do local onde actualmente se situa a igreja paroquial de Nossa Senhora das Neves.
Com a chegada, em 1493, de Álvaro de Caminha, o terceiro donatário da ilha, foi transferida a povoação para uma das amplas baías de Nordeste, intensificando-se o povoamento a partir da principal vila.
Há referencia, em 1504, à primeira paróquia da ilha, - com o título de Nossa Senhora da Graça à que também chamam de Avé Maria (1), estando o vigário a cargo da Fazenda Real. É desta primeira fase que datam também as mais antigas confrarias – de Nossa Senhora da Graça, da Misericórdia, de Nossa Senhora do Rosário…
Em 1514, as ilhas passaram a ser sufragâneas da Diocese de Funchal, entretanto criada, sendo suprimida a jurisdição do vigário de Tomar.
Em 1534, foi criada a Diocese de São Tomé. Abrangia um vastíssimo território: as ilhas de São Tomé, Santo Antão (Príncipe), Fernão Pó, Ano Bom e Santa Helena; toda a zona entre o Cabo das Palmas e o Cabo das Agulhas, incluindo São Jorge da Mina e as regiões do Congo e de Angola. Ficou sediada na igreja de Nossa Senhora da Graça na cidade de São Tomé. Foi nomeado primeiro bispo D. Diogo Ortiz de Villegas - que não chegou a tomar posse.
A Diocese de São Tomé passou a ser sufragânea de Lisboa em 1550 e, a partir de 1677, sufragânea da Baía, tendo findado a jurisdição sobre o continente africano em 1679.
A assistência religiosa em São Tomé foi sempre muito difícil e irregular. Grande parte dos Bispos faleciam no início do episcopado, assim como os clérigos ou os religiosos vindos de Portugal – o clima e as doenças locais foram frequentemente fatais para os prelados. Houve períodos longos sem bispo residente, uma das possíveis causas da grande conflitualidade entre a autoridade administrativa e a autoridade eclesiástica, e entre o próprio clero.
Os primeiros religiosos permanentes foram os Eremitas de Santo Agostinho. Acompanharam o Bispo D. Frei Gaspar Cão, na sua chegada a São Tomé (c. 1562). Fundaram um convento e administraram o primeiro seminário.
Os capuchinhos franceses estiveram em São Tomé entre 1639 e 1653.
Os capuchinhos italianos chegaram em 1684 e permaneceram até ao princípio do século XIX. Tiveram uma acção profunda e duradoura, corrigindo abusos e costumes, assistindo aos enfermos, servindo nas freguesias fora da cidade (7).
Os jesuítas chegaram em 1684, tendo uma presença efémera nas ilhas.
Os Agostinhos Descalços chegaram em 1686, também com importante acção missionária e educativa da ilha. Foram vários os bispos de São Tomé desta ordem religiosa.
As perturbações causadas pelos Angolares - nomeadamente os ataques à cidade em 1574 e durante o século XVII -, pelos corsários franceses (1567, 1709) e holandeses (1598, 1599), e particularmente pela ocupação flamenga entre 1641 e 1644, deixaram a ilha muito empobrecida. Grande parte das igrejas foram saqueadas, as imagens sagradas roubadas ou destruídas. As paróquias não conseguiram repôr o perdido. A grande dificuldade esteve na prática do culto litúrgico, pois a ilha ficou privada do abastecimento de vinho e farinha, necessários para a celebração da Santa Missa.
Durante o século XVII e XVIII, o catolicismo manteve-se vivo pela acção dos sacerdotes naturais da ilha, grande parte formados no Brasil, que asseguraram a assistência espiritual e mantiveram a prática religiosa.
No final do século XVIII, era notória a grande decadência religiosa em São Tomé.
A Diocese esteve sem Bispo a partir de 1819, sendo visitada eventualmente pelo bispo residente em Angola.
Com a independência do Brasil em 1822, deixaram de vir os sacerdotes formados naquela região. As ordens religiosas foram extintas em Portugal e nos territórios ultramarinos (1834). As igrejas e os espaços sagrados permaneceram num acentuado estado de degradação, algumas vezes reedificados à custa de esmolas do povo ou dos roceiros.
Entre 1845 e 1941, a diocese de São Tomé esteve sob jurisdição do patriarca de Lisboa.
Nas últimas décadas do século XIX (1870-1880) a administração colonial promoveu a evangelização através de missionários metropolitanos, vindos de Cernache do Bonjardim. Em 1927, chegaram os missionários claretianos, com um papel importante na assistência religiosa e na educação.
Em 1941, a diocese de São Tomé passou a depender da diocese de Luanda, o Arcebispo de Luanda passando a ser também Bispo de São Tomé. Este período foi marcado pelo renascimento da Diocese, promovendo-se o restauro das igrejas matrizes das doze freguesias existentes.
Após a independência em 1975, as escolas dirigidas pelos missionários foram estatizadas, diminuindo o papel da igreja católica na formação dos ilhéus.
Em 1984, a Diocese de São Tomé autonomizou-se, ficando directamente sob autoridade da Santa Sé, sendo seu Bispo D. Abílio Rodas de Sousa Ribas (1931-2025).
Nos finais do século XX, a igreja renovou-se, assente mo multissecular cristianismo, e na sua importância na história do arquipélago e de toda a população. A religiosidade dos ilhéus permaneceu sempre irredutível, constituindo um valor intrínseco e identitário da cultura santomense.
O Bispo D. Manuel António referia-se em 2017, ao povo santomense, naturalmente religioso, (…) com a vivência também muito de outras tradições, particularmente de Portugal. (…) sente-se a presença de uma cultura católica marcante. As Igrejas com as suas festas, as suas cerimónias litúrgicas, (…) são marcos bem presentes na paisagem humana santomense.
São João Paulo II, na histórica visita à Diocese de São Tomé em 1992, referiu-se aos Amados santomenses com uma fé posta já à prova por tantas vicissitudes ao longo dos séculos e que, por graça de Deus, souberam preservar e que agora os identifica como povo.
D. João de Ceita Nazaré, empossado a 17 de Março de 2024, é o primeiro bispo a Diocese de São Tomé de nacionalidade santomense.
V . SÃO TOMÉ: CULTO E ICONOGRAFIA
São Tomé é apelidado com o sobrenome de Dídimo, que em grego significa «gémeo».
Pouco se conhece das origens deste apóstolo, a quem se devem no entanto duas importantes passagens do evangelho. Na Última Ceia, a hesitação de Tomé – Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos saber o caminho? – dá oportunidade a Jesus de pronunciar a célebre definição: Eu sou o Caminho, a Verdade e a vida» (Jo 14,5-6). E Tomé foi o único apóstolo que duvidou expressamente da Ressurreição de Cristo, que o confirmou na fé mostrando-lhe as chagas; ao que Tomé responde Meu Senhor e meu Deus!» (Jo 20,28), considerada uma das mais belas profissões de fé de todo o Novo Testamento.
São Tomé foi, segundo uma tradição muito antiga e difundida, o primeiro evangelizador das Índias; terá sido martirizado perto de Madrasta, onde foi sepultado e onde ainda hoje o seu túmulo é venerado.
Na iconografia cristã, é representado com a lança alusiva ao martírio.
A ilha deve o seu nome ao dia em que foi descoberta, a 21 de Dezembro, dia em que se comemorava o Apóstolo São Tomé.
Liturgicamente, embora tenha sido alterada a celebração litúrgica para 3 de Julho, na ilha continuam a celebrar-se as Festas de São Tomé Poderoso no dia 21 de Dezembro.
São Tomé é o padroeiro da Ilha e da Diocese, sendo o dia 21 de Dezembro também celebrado oficialmente pela descoberta da ilha pelos navegadores portugueses.
- MATOS, Raymundo da Cunha in CRUZ, Tenente-Coronel João José de Sousa, As Ilhas do Equador – I Parte, https://www.revistamilitar.pt/artigo/1055
- BRÁSIO, António, Monumenta Missionária Africana, Vol. 2, 1953, pp. 279-280.
- PINTO, Manuel do Rosário, Relação Do Descobrimento Da Ilha De São Tomé, Centro de História de Além-Mar, Universidade Nova de Lisboa, Edições CHAM, 2006, p. 64.
- BRÁSIO, António, Monumenta Missionária Africana, Vol. 12, África Ocidental (1656-1665). Lisboa: Academia Portuguesa da História, 1981, p. 453.
- PINTO, Manuel do Rosário, Relação Do Descobrimento Da Ilha De São Tomé, Centro de História de Além-Mar, Universidade Nova de Lisboa, Edições CHAM, 2006, p. 182-183.
- SANTA MARIA, Agostinho de, Santuário Mariano (…), Vol.10, 1707, pp 428-429
- Arquivo Histórico Ultramarino, Consulta do Conselho Ultramarino, 22 de Novembro de 1690.
REFERÊNCIAS
- ALMEIDA, Fortunato de, História da Igreja em Portugal, Nova Edição preparada e dirigida por Damião Peres, Portucalense Editora, Porto, 1967-1971.
- NEVES, Carlos Agostinho das, São Tomé e Príncipe na segunda metade do século XVIII, Funchal/Lisboa, Secretaria Regional do Turismo, Cultura e Emigração/Instituto de História de Além-Mar, 1989.
- AZEVEDO, Carlos, Dicionário da História Religiosa de Portugal (dir.), Lisboa, Círculo de Leitores, 2000.
- CALDEIRA, Arlindo, 2006, texto, introdução e notas de PINTO, Manuel do Rosário, Relação Do Descobrimento Da Ilha De São Tomé, Lisboa, FCSH-CHAM, 2006
- BRAGANÇA, Ekeseni Celestino Do Sacramento Neto Sequeira, O Urbanismo e Arquitectura de Origem Portuguesa em São Tomé, Dissertação de Mestrado em Arquitectura, Porto, F.A.U.P., 2009.
- MARIZ, Vera Félix, A “memória do império” ou o “império da memória” a salvaguarda do património arquitectónico português ultramarino (1930-1974), Dissertação de Doutoramento, Lisboa, Universidade de Lisboa, 2016.
FOTOGRAFIA
- DIANA PEREIRA
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