A Chegada da Nau do Trato e o Festival Kunchi, Nagasáqui, Japão


Dozamachi é um bairro histórico da cidade de Nagasáqui, muito ligado à presença lusa no Japão, e considerado pelos moradores e lojistas como antigo local onde viveram os portugueses. A comunidade preserva muitos elementos desta presença, nomeadamente na gastronomia. No seu limite fica situada a Associação Portugal – Japão de Nagasáqui.

Em 1989, Dozamachi fez a sua primeira apresentação com o tema do Nanban-sen – o grande barco dos bárbaros do Sul – no conhecido Festival Kunchi de Nagasáqui.

O carro alegórico é uma réplica da Kurofune – o grande navio negro - que anualmente ancorava no porto de Nagasáqui. O navio está decorado com o escudo português nas velas, o antigo brasão de Macau no mastro grande e as actuais bandeiras nacionais do Japão e de Portugal. A tripulação tem vestimentas à antiga “moda portuguesa” – casaca e chapéu. O acompanhamento musical é realizado por flautas e cantos festivos, e eventualmente uma toada portuguesa, com a participação do público assistente.

A apresentação tem grande dinamismo no movimento rotativo da embarcação - como que atacada por forte tufão em pleno mar -, manobrado por um grupo de marinheiros. O sincronismo nos movimentos é realizado ao toque de tambores marcando o ritmo preciso das voltas do pesado navio.

Iconograficamente, a coreografia baseou-se na pintura de um dos Biombos Nanban do Museu Bunkakan de Osaca, com pinturas atribuídas a kano Mitsunobu (1565-1608), reproduzido na Sala de Exposições da Associação Portugal-Japão de Nagasáqui.

O grande navio que participa no festival Kunchi encontra-se no Museu Antropológico e Etnográfico de Nagasáqui.

As últimas participações de Dozamachi foram em 2010 e 2017, estando a próxima marcada para 2027.

 

O Festival Kunchi

O Festival Kunchi de Nagasáqui é uma das festas mais populares da cidade. Realiza-se anualmente entre 7 e 8 de Outubro, uma tradição classificada no Japão como Bem Cultural Imaterial de Importância.

Consiste no desfile de carros alegóricos dos vários bairros que compõem a cidade, traduzindo a herança histórico-religiosa e cultural de cada comunidade. A participação é rotativa, com uma periodicidade de sete anos para cada distrito.

A origem do festival remonta a 1634, associado ao Santuário xintoísta de Suwa, após a proibição do cristianismo no país. O governo xogunal propôs-se a substituição das celebrações religiosas, nomeadamente a grande procissão do Corpo de Deus, por celebrações budistas e/ou xintoístas, recorrendo a formas de organização análogas às desenvolvidas no culto cristão. Em Nagasáqui, os habitantes foram organizados espacialmente por meio dos machi – bairros sensivelmente correspondentes às antigas paróquias - sendo obrigados a participar no festival como espectadores, organizadores ou artistas.

À semelhança das anteriores confrarias religiosas, a procissão Kunchi, com danças votivas, atravessava a via principal da cidade desde o porto, passando pelo antigo bairro da cruz-machi, até ao Santuário Suwa, substituindo a função da procissão do Corpo de Deus como eixo de agregação e articulação da população local.

Este processo de estruturação da procissão, pelo qual todos os bairros e respectivos moradores tinham de se declarar oficialmente como não cristãos, esteve na origem das comunidades de Kakure Kirishitans – os cristãos escondidos de Nagasáqui - que permaneceram ocultas até 1865.

Após o grande incêndio de Nagasáqui em 1857, que destruiu parte do Santuário Suwa, e a abertura do porto ao comércio estrangeiro em 1859, o Kunchi transformou-se num festival “novo”, no qual os bairros participantes tinham liberdade para inovar e competir entre si, sendo a origem das deslumbrantes apresentações, que actualmente reflectem a diversidade cultural e a história peculiar de Nagasáqui.

O festival teve particular importância como elemento motivador das comunidades de Nagasáqui, nos períodos mais perturbadores da sua história. É de assinalar a sua realização em 7 de Outubro de 1945, menos de dois meses após o bombardeio atómico da cidade (9 de Agosto de 1945).

A evolução da participação dos bairros foi crescendo. Muitos bairros começaram a substituir as danças tradicionais votivas por carros alegóricos com forte cunho histórico-cultural, que permitiam a participação de muitos jovens e crianças, fortalecendo os laços comunitários – de particular importância na cultura japonesa. Cada bairro apresentava um carro alegórico e/ou uma dança, que nalguns casos ficou particularmente célebre.

O histórico bairro de Dozamachi, com forte presença portuguesa, começou a participar em 1889, originalmente apenas com danças tradicionais.

Actualmente existem cinquenta e oito bairros a participarem no festival.

 

Nagasáqui – a origem portuguesa

Em 1571, o grande navio negro proveniente de Macau ancorou na baía de Nagasáqui, marcando a fundação da nova cidade – que viria a constituir o limite mais remoto das redes comerciais portuguesas.

A povoação foi-se estendendo a partir do porto sobre as colinas envolventes, em ruas sinuosas, marcando uma originalidade própria.

Desde o início, o local foi quase exclusivamente povoado por cristãos. Em 1580, Omura Sumitada (15331587) cedeu o porto de Nagasáqui aos missionários jesuítas, que se encarregaram da administração. A cidade foi organizada em paróquias - os futuros bairros ou machis.

Em 1571, pouco depois da sua fundação realizaram-se as primeiras procissões da cidade.

A procissão tornou-se uma realidade viva no centro do espaço urbano, toda a população confluindo para as ruas centrais e participação das instituições que a organizavam. A via processional converteu-se no eixo central da vida urbana e na rota principal para as procissões mais importantes do calendário litúrgico. O trajecto das procissões ia do complexo jesuíta perto das docas e do comércio até ao cemitério de Cruz-machi, no local da igreja de São Domingos.

A procissão do Corpo de Deus, de modo particular, tornou-se num dos principais eventos anuais da cidade de Nagasáqui, integrando, de acordo com a hierarquia social da cidade, as piedosas mulheres japonesas, os ricos comerciantes, e também, no final da procissão, as “cortesãs” das casas de prostituição dos bairros marginais. Ao longo da procissão realizavam-se danças religiosas frente ao Santíssimo Sacramento, numa simbiose entre o estilo regional e europeu, com imagens sagradas e a participação de numerosas crianças.

O crescimento da cidade esteve ligado ao comércio. Nagasáqui tornou-se o principal ponto de convergência das redes comerciais que percorriam os mares do Oriente, conectando particularmente Lisboa, Goa, Malaca e Macau através do Nanban-sen.

A sua prosperidade atraiu, a partir do início do século XVII, outras potências marítimas europeias, nomeadamente os holandeses, que disputaram, por acções de assalto e pirataria, a rota do Japão.

Em 1587, a promulgação do édito de expulsão dos missionários por Toyotomi Hideyoshi (1537-1598), abalou o comércio de Nagasáqui, dada a grande interpenetração entre os comerciantes e os jesuítas. Após o novo édito de expulsão dos missionários em 1614 por Ieyasu Tokugawa (1543-1616), grande parte da população de Nagasáqui permaneceu cristã. A comunidade incluía os japoneses mais poderosos do distrito, comerciantes e administradores locais, além dos portugueses e dos luso-nipónicos.

Com a expulsão definitiva dos portugueses em 1639, terminou o período cristão do Japão.

 

REFERÊNCIAS

  • CURVELO, Alexandra, A Arte Namban e a sua circulação entre a Ásia e  América: Japão, China e Nova-Espanha (c. 1550 – c. 1700), Tese de Doutoramento, Lisboa, Departamento de História da Arte, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2007.
  • ISHIO, kazuki, Registos de 1889 (Meiji 22), quando Doza-machi participou pela primeira vez do festival Nagasaki Kunchi, Conferência Web de Estudos de Nagasáqui, Tabinaga, https://tabinaga.jp/tanken/, 2014.
  • MATOS, Inês Carvalho, Património cultural da presença portuguesa em Nagasaki, Revista Oriente, Lisboa, Nº 24, 2016.
  • OTA, Yuki, Nagasaki Kunchi após a guerra, Coluna Kunchi de Nagasaqui, 2021. https://nagasaki-kunchi.com/column/53/
  • MOSQUERA, David Rivera, Espaços contestados e práticas rituais na Nagasaki da Idade Moderna: o festival de Suwa e a procissão do Corpus Christi, Princeton, Universidade de Princeton, 2025.
  • https://www.youtube.com/watch?v=hZ3Y7QgVXt0

 

Fotografia

https://nagasaki-kunchi.com/column/53/



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