Os Biombos Nanban de Kobe, Japão


O Museu Municipal de Kobe, no Japão, possui um valioso par de biombos nanban, dos finais do século XVI - inícios do século XVII. São constituídos por painéis de seis folhas articuladas com representação do grande navio negro vindo de Macau – o Kurofune -, do descarregar das mercadorias pelos nanban-jin – os bárbaros do Sul - e cenas do quotidiano japonês.

No biombo esquerdo está representada a partida do grande navio de um porto estrangeiro, com as velas desfraldadas. O porto, uma terra imaginada, integra elementos chineses e europeus, sendo possivelmente uma alusão fantasiosa de Macau. Apresenta edifícios coloridos de inspiração chinesa e outros em cúpula, provavelmente uma referência à cultura ocidental. Os nanban-jin estão representados com olhos grandes, nariz longo e poses diversas.

O biombo direito mostra a chegada às terras do Sol Nascente. O navio tem as velas recolhidas e procede-se ao descarregamento de mercadorias. Está representada a chegada do capitão-mor e sua comitiva; animais raros no espaço nipónico – elefante, cavalos árabes, galgos; uma loja de produtos chineses comercializando peles de tigre e leopardo, tecidos de seda e cerâmica; um templo cristão onde um sacerdote celebra a Missa; missionários jesuítas e franciscanos, além de fiéis nipónicos.

De um modo geral, este par de biombos destaca-se pelas cores vibrantes, com representações meticulosamente detalhadas do navio, da arquitectura dos edifícios, das vestimentas dos nanban-jin – com utilização de técnicas específicas para tecidos também especiais como o veludo.

Os Biombos têm assinatura - Pintado por Kanō Naizen - com selo quadrado branco, em cada um dos painéis.

A obra faz parte de uma das maiores colecções mundiais de arte nanban. Pertencia à Colecção de Arte Nanban de Nagami Tokutarõ (1890-1950), que por sua vez foi adquirida em 1932 por Takeshi Ikenaga (1891-1955). Este fundou um museu para exibir a colecção – o Museu de Arte Ikenaga -, origem do actual Museu Municipal de Kobe, onde presentemente se encontra. As peças são semelhantes a um dos pares de biombos existente no Museu Nacional de Arte Antiga, também atribuído a Kanō Naizen

A obra é do período Azuchi-Momoyana (1573-1603), a época de unificação territorial, com presença ocidental dentro do território. A representação de franciscanos permite datar as peças como posteriores à sua chegada ao território japonês (1592).

É uma obra valiosa por ser reconhecidamente da autoria de Kanō Naizen (1570-1615) e pelo facto de a maior parte das obras que retratam a chegada de estrangeiros não estarem assinadas.

 

O Kurofune, o Grande Barco Negro

A chegada dos portugueses ao Japão, em 1543, marcou o início da Rota do Japão. Nos anos que se seguiram, vários locais da ilha de Kyushu foram visitados por aventureiros e mercadores privados portugueses. O comércio era muito rentável apesar dos riscos inerentes à viagem, nomeadamente naufrágios e pirataria. Devido ao corte de relações entre a China e o Japão, os mercadores portugueses serviram de intermediários, não existindo no início um porto fixo no Japão para este comércio.

Em 1550, foi criada uma viagem anual que passou a ser monopólio da coroa portuguesa, a cargo de um capitão-mor, posto atribuído pelas autoridades oficiais como recompensa dos serviços prestados. Francisco de Mascarenhas foi o primeiro capitão-mor da rota do Japão (1556).

A partir de 1557, Macau passou a ser paragem obrigatória na rota da Nau do Trato – nome dado à grande embarcação. Nagasáqui, uma aldeia de pescadores situada na ilha de Kyushu, no Japão, passou a ser o porto preferencial de atracagem do navio.

Nos finais do século XVI, a rota da Nau do Trato era já uma carreira regular. O grande navio saía de Goa em Abril / Maio carregado de mercadorias muito variadas, indianas e ocidentais. Cerca de um mês depois aportava em Malaca, onde parte da carga era trocada por especiarias. Seguia para Macau, chegando a esta cidade entre Junho e Agosto.

Em Macau, era necessário fazer uma paragem de cerca de dez ou doze meses, aguardando a monção favorável para seguir para o Japão. O grosso da carga era constituído por seda em rama oriunda da China central, obtida pelos mercadores portugueses nas feiras semestrais de Cantão.

O trajecto final com destino ao Japão iniciava-se no ano seguinte, podendo demorar cerca de um mês a chegar a Nagasáqui. Neste porto permanecia aguardando a monção de Outubro / Novembro para regressar. Caso se atrasasse, apenas poderia partir em Fevereiro / Março do ano seguinte. Carregado de mercadorias, nomeadamente a prata, o navio iniciava a viagem de regresso para Macau entre Novembro e Março.

A grande embarcação transportava também, para além dos missionários, alfaias religiosas e correspondência, sobretudo no eixo Macau-Japão.

Nos inícios do século XVII, começaram a surgir dificuldades na realização da viagem, sobretudo a partir da chegada de outras potências europeias, nomeadamente os holandeses. Os ataques tornaram-se constantes no trajecto de Macau para Nagasaqui.

Com o édito de 1614 determinando a saída dos religiosos e a expulsão efectiva dos portugueses em 1639, terminou a famosa Rota do Kurofune ao Japão.

 

Os Biombos Nanban

Os biombos – byôbu em japonês - são constituídos por painéis articulados, geralmente realizados aos pares, e pensados para compartimentar espaços. Nas superfícies das folhas o pintor registava temas em continuidade narrativa.

Os biombos tiveram provavelmente a sua origem na China no século VIII e daí passaram ao arquipélago nipónico. O Japão desenvolveu o biombo a seu gosto, substituindo gradualmente a seda das folhas articuladas por papel com decoração pictórica.

Em meados do século XV foi fundada em Quioto a escola de arte por Kanō Masanobu (1434-1530), mantendo-se activa durante mais de 400 anos, no centro do mundo artístico japonês.

A partir da chegada dos portugueses ao Japão em 1543, desenvolveu-se uma temática da arte centrada nos nanban-jin.

No final do século XVI, a Escola Kanō passou por uma mudança importante a nível artístico, quanto aos temas representados, estando associada a uma clientela abastada da região de Quioto e Osaka-Sacai, onde se localizavam as principais oficinas.

A construção do Castelo de Nagoya em 1591, na província de Hizen em Kyushu, por Toyotomi Hideyoshi (1537-1598), foi possivelmente o ponto de partida da execução dos biombos nanban. Na primavera de 1593, um grupo de pintores da Escola Kanō deslocou-se a Nagasáqui, centro do comércio Macau-Japão, tendo ocasião de observar a chegada do grande barco negro proveniente do Ocidente.

A arte nanban iniciou-se provavelmente nos primeiros anos da década de 1590. São desta época os biombos nanban mais antigos que se conhecem, provavelmente resultantes da jornada dos artistas a Nagasaki, com a representação dos nanban-jin e do Kurofune.

Os biombos foram produzidos principalmente entre os finais do século XVI e meados do século XVII, encontrando-se dispersos por todo o mundo.

As pinturas descrevem o extraordinário confronto de civilizações, com a chegada dos portugueses, contemplados segundo a perspectiva oriental. São composições de carácter realista, com temas do quotidiano, e atenção dada ao pormenor. Temas exóticos do ponto de vista nipónico foram a chegada do kurofune, protagonista central das pinturas, a figuração dos nanban-jin - comerciantes e missionários - e respectivas vestimentas, a tripulação multirracial – particularmente os africanos - e a peculiar prática cristã.

O estudo da arte nanban teve no Japão os seus começos com Nagami Tokutaro (1890-1950), pioneiro neste tema e um dos mais proeminentes estudiosos da arte nanban, que cunhou o termo no seu livro Namban-bijutsu-shu (1928).

Na historiografia portuguesa, a publicação das “Notas sobre a iconografia dos Portugueses no Japão nos séculos XVI e XVII”, em 1929, pelo diplomata José da Costa Carneiro (1883 – 1946), foi o estudo percursor e impulsionador em Portugal sobre a temática dos célebres biombos nanban.

Nos inícios do século XX, apenas se conheciam nove exemplares de biombos nanban.

Actualmente estão identificados mais de noventa exemplares, segundo o catálogo Nanban byōbu shūsei  editado em 2008, sob coordenação de Mitsuri Sakamoto.

 

REFERÊNCIAS

  • BOXER, Charles Ralph, The great ship from Amacon, Macau, Centro de Estudos Marítimos de Macau, 1988.
  • THOMAZ, Luís Filipe, Nanban Jin Os Portugueses no Japão, Edição dos CTT, 1993.
  • CURVELO, Alexandra, Obras-primas dos Biombos Nanban, Japão-Portugal século XVII. Paris, Éditions Chandeigne, 2015.
  • SIMÕES, João Carlos dos Santos, As relações Luso-Nipónicas durante a época Nanban, Dissertação de Mestrado, Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2016.

 

FOTOGRAFIAS

https://www.kobecitymuseum.jp/collection/detail?heritage=365028



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