Santo António em Wahakotte, Sri Lanka
O Santuário de Santo António em Wahakotte
Em Wahakotte, vila do interior do antigo reino das montanhas – Cândia - está situado um dos principais santuários do Sri Lanka dedicado a Santo António.
Segundo registos antigos, foi em Wahakotte que o rei Yamsinghe Bandara - D. Filipe - (1557-1591) foi coroado, sob a protecção dos portugueses e onde seu filho D. João de Cândia (c. 1578-1642) se refugiou antes de fugir para Goa e depois para Portugal, sob a protecção dos religiosos franciscanos – D. João de Cândia em agradecimento fundaria em Lisboa um convento sob a invocação de Nossa Senhora da Porta do Céu.
Durante o domínio holandês (1638-1782) e as perseguições que se seguiram, o rei Rajasingue II (1635-1687), instalou em Wahakotte os cativos portugueses e suas famílias. Foi esta a origem da aldeia rural que serviu de refúgio para grande número de católicos fugidos das áreas controladas pelos holandeses. A aldeia desenvolveu-se como uma pequena comunidade, que manteve a fé e a prática cristã em segredo. Segundo a tradição, faziam as suas preces numa cabana de madeira que servia de estábulo durante o dia e à noite se transformava em local de oração.
A comunidade de Wahakotte conservou uma imagem de Santo António saqueada de uma igreja de Kandy, a capital do reino. A pequena estátua, segundo a tradição, era escondida dentro de uma panela de arroz pelos aldeões durante a perseguição holandesa e dos governantes de Cândia.
Em 1687, chegou secretamente à ilha São José Vaz (1651-1711), o grande Apóstolo do Ceilão, que restruturou a vida cristã da ilha. Visitou Wahakotte, instalando-se no pequeno santuário disfarçado de curral.
Durante o domínio britânico, a partir de 1782, de maior liberdade religiosa, a pequena comunidade intensificou a devoção a Santo António, padroeiro da aldeia e invocado em todas as ocasiões.
A partir de 1821, os padres católicos passaram a visitar a aldeia com regularidade. Em 1888, foi estabelecida a paróquia de Wahakotte, entregue aos religiosos beneditinos.
Wahakotte foi descrita por J. P. Lewis em 1908 como sendo um lugar com seiscentos e cinquenta e três habitantes, descendentes dos cativos portugueses aí estabelecidos durante o reinado de Rajasinha II, sendo a “aldeia sempre cristã”, e a igreja “pequena e simples, pois os habitantes são pobres” possuindo uma “antiga imagem de Santo António” (1), muito venerada pelos habitantes.
O culto extravasou a pequena aldeia. Durante uma grande seca que afectou toda a região, as comunidades budistas locais imploraram aos católicos que intercedessem junto de Santo António pedindo o término da calamidade, o que aconteceu efectivamente. Em agradecimento, celebraram o Hewisi, música tradicional do culto budista, que está na origem de uma singular forma de devoção em Wahakotte, participada por católicos e budistas durante as festividades de Santo António no mês de Junho.
Em 1938, foi finalizada a nova igreja de Wahakotte. O Santuário atraiu uma imensidade de fiéis ao longo dos séculos XX e XXI. Em 1970, foi declarado local histórico e proclamado centro nacional de peregrinação.
Actualmente, as grandes festividades de Santo António ocorrem por ocasião da celebração litúrgica de 13 de Junho. Uma grandiosa procissão com a pequena imagem do santo percorre a vila, incluindo no seu itinerário o local onde, segundo a tradição, esteve São José Vaz. Outras festividades ocorrem a meados de Agosto, celebrando o seu nascimento.
As festividades incluem os cantos tradicionais Hewisi, um dos poucos casos de simbiose das diferentes comunidades, e que teve origem no milagre obtido pela intercessão de Santo António.
As celebrações retratam de algum modo a história da resistência heroica dos católicos de Sri Lanka, que durante cerca de 200 anos mantiveram a fé num ambiente não católico, contra todas adversidades e sem qualquer ajuda do clero organizado.
A imagem de Santo António em Wahakotte é provavelmente originária de Portugal. É de madeira e tem dimensões muito reduzidas, cerca de 15 cm.
O Santuário Nacional de Wahakotte é um dos locais de peregrinação mais importantes dos católicos em Sri Lanka que, ao longo de 400 anos, desde o início da evangelização no século XVI mantiveram a fé viva e activa na ilha.
O Culto de Santo António no Sri Lanka
Santo António de Lisboa (ou de Pádua), o primeiro doutor da Ordem Franciscana, nasceu em Lisboa em 1195 e faleceu em Pádua em 1231. Foi canonizado no ano seguinte, e desde logo se enraizou em Portugal e nas terras de além-mar a devoção ao “santo português”. Foi de modo singular protector dos militares lusitanos.
No Ceilão, a devoção foi levada pelos soldados das armadas que chegaram à ilha a partir de 1506. O registo desta devoção encontra-se, de forma implícita e explícita, em muitos documentos dos séculos XVI e XVII. Vários bastiões de fortalezas entretanto construídas tiveram a invocação de Santo António.
O culto foi especialmente promovido pelos franciscanos, a primeira ordem religiosa que dominou a prática religiosa na ilha.
No período de ocupação holandesa, a devoção permaneceu, apesar da perseguição movida pelos calvinistas flamengos a tudo o que era afecto ao catolicismo. Santo António foi invocado no segredo das casas, a sua devoção intensificou-se e foi preservada ao longo de séculos.
Em Cândia, São José Vaz, durante o domínio flamengo, conseguiu organizar a festa de Santo António de modo público, sem medo de opressores. Em 1707 (c.) o rei Sri Weera Narendrasinghe (1706-1739), grande devoto de Santo António, impulsionou o patronato em Cândia, o reino das montanhas, sendo construída uma igreja especialmente dedicada ao grande santo no centro da capital.
Em Colombo, o célebre Santuário de Santo António teve origem também durante o período de ocupação holandesa, sendo igualmente, a par de Wahakotte, um local de peregrinação nacional.
Actualmente no Sri Lanka, o culto antonino é um fenómeno popular de grande relevância, abrangendo não só os católicos como crentes de outras religiões. Há muitas igrejas dedicadas ao santo português e as festas celebradas por volta do dia 13 de Junho são intensamente concorridas, prolongando-se por vários dias…
Santo António é o padroeiro da Diocese de Cândia.
A Diocese de Cândia
A referência mais antiga relativa à presença de cristãos em Ceilão data de 535. No entanto, apenas a partir da chegada dos portugueses em 1506, se iniciou a evangelização da ilha de forma sistemática.
A primeira Missa em Ceilão foi celebrada numa pequena capela erigida em Colombo e dedicada a São Lourenço, por Frei Vicente, religioso franciscano capucho. A ilha ficou a pertencer à Diocese do Funchal.
Em 1518, chegava um pequeno grupo de franciscanos, sendo apontado um religioso como capelão permanente da fortaleza entretanto erguida. Uma carta de D. Manuel I, em 1521, lembrava ao capitão a sua responsabilidade por dilatar a fé. Em 1530, há registo de um vigário – Frei Luís Monteiro de Setúbal - que ali viria a ser enterrado em 1536.
Entretanto, em 1534, Ceilão passou a pertencer à Diocese de Goa.
A evangelização da ilha fez-se de modo mais intenso e regular a partir da década de 1540, com os religiosos franciscanos. As missões cristãs foram crescendo, com a conversão das comunidades principalmente costeiras. Sucederam-se outras ordens religiosas: os Jesuítas, os Agostinhos e os Dominicanos. Em 1557, Ceilão foi colocado sob a jurisdicção da Diocese de Cochim.
Quando os holandeses, a partir de 1638, conquistaram as áreas que estavam sob o domínio português, confiscaram todas as instituições católicas – igrejas, escolas,…-, expulsaram os padres católicos e proibiram todas as actividades religiosas.
A aliança dos reis de Cândia com os holandeses tomou também a forma de perseguição aos católicos. No tratado assinado em 1638, entre Rasasingue II, rei de Cândia, e os flamengos, uma das cláusulas proibia a admissão de clero católico romano. Um interdito de 1658 proibia igualmente, sob pena de morte, que se albergassem ou ocultassem sacerdotes católicos.
O empenho na protestantização da ilha não impediu, no entanto, as práticas religiosas, que em segredo, continuavam a ser realizadas. Perante a crescente intolerância religiosa, foi ganhando força a resistência católica, nomeadamente no interior da ilha, no reino de Cândia. A chegada de São José Vaz, sacerdote goês, em 1687, que se dedicou a restaurar as comunidades em toda a ilha, foi um exemplo notável desta resiliência.
Sob o domínio britânico, uma maior liberdade religiosa foi assegurada.
Em 1887 foi erigida a Diocese de Cândia, sendo o seu primeiro bispo D. Clemente Pagnani O.S.B. (1834-1911).
(1) LEWIS, J. P. “Kandyan Notes”. In Ceylon antiquary and literary register, Vol.6 (1920-1921), p. 181.
REFERÊNCIAS
- AZEVEDO, Carlos, (dir.) Dicionário da História Religiosa de Portugal, Lisboa, Ed. Círculo de Leitores, 2000.
- FLORES, Jorge Manuel, A Ilha de Ceilão e o Império Asiático Português in Oceanos, nº 46 Abril / Junho 2001.
- JAYASINGHE, Sagara, An account of the Devotion to St. Anthony during the Portuguese and Dutch occupation in Sri Lanka, Oriente. Lisboa, Fundação Oriente, 2015, vol. 24, pp. 78 -89.
- JAYASINGHE, Sagara; SANTOS, Joaquim Rodrigues dos; CARITA, Hélder. Remains of Dark Days: The Architectural Heritage of Oratorian Missionary Churches in Sri Lanka. Casal de Cambra, Caleidoscópio, 2019.
- PERERA, Dilshan, https://www.sagraphicslk.com/catholicism/st-anthonys-shrine-wahakotte/, Maio, 2024.
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