O Fá D'Ambô da Ilha de Bom Ano, Guiné Equatorial
Ano Bom é uma pequena ilha vulcânica no Golfo da Guiné, situada a Sul de São Tomé.
A data da descoberta da ilha não foi determinada, mas teria sido, segundo a versão mais usual, no dia 1 de Janeiro – que está na origem do seu nome - de 1471, pelos navegadores portugueses João de Santarém e Pedro Escobar que, ao serviço de Fernão Gomes por contrato com a coroa portuguesa, realizavam o reconhecimento da costa africana. A ilha estava desabitada, tal como as outras ilhas do Golfo da Guiné também descobertas no mesmo período - com excepção de Fernando Pó.
Em 1503, a capitania de Ano Bom foi doada a Jorge de Melo (c. 1460 -1534), fidalgo da casa de D. Manuel I, para ele e seus sucessores. Jorge de Melo terá ajustado o povoamento da ilha com Baltazar de Almeida – morador na ilha de São Tomé e feitor dos escravos - que remeteu alguns casais para a ilha, a partir de São Tomé. Em 1507, havia apenas nove moradores e não existia nem igreja nem clérigo.
Em 1534, ficou incluída no território da nova diocese de São Tomé, entretanto criada, com as ilhas de São Tomé, Santo Antão (Príncipe), Fernão Pó e Santa Helena, além da costa continental africana.
O início do cultivo de algodão deu-se nas décadas de 1540-1560, com a fixação de alguns portugueses e escravos africanos para a exploração agrícola. Em 1565, o segundo donatário, Álvaro da Cunha, vendeu os seus direitos sobre a ilha a Luís de Almeida – fidalgo casado com a notável santomense D. Simoa Godinho. Nenhum dos donatários residiu na ilha, sendo a sua administração realizada por um feitor.
A partir de finais do século XVI, tornou-se constante a presença de navios europeus, nem sempre pacífica. A ilha, na altura com cerca de duzentas pessoas, foi ocupada e saqueada por frotas neerlandesas em 1598, 1605 e entre 1660 e 1664.
A assistência religiosa foi sempre irregular, não existindo durante largos períodos de tempo quem celebrasse os sacramentos. O Conselho Ultramarino acentuava em 1693 a necessidade de acudir-se ao desamparo daquela cristandade.
A partir do início do século XVIII, a população ficou entregue a si própria, passando a gozar de uma efectiva autonomia e criando mecanismos próprios de governação. Os anobonenses começaram a eleger um capitão-mor natural da ilha, substituído por um missionário quando presente.
Também a assistência religiosa que fora sempre muito intermitente, desapareceu quase por completo. Entre 1724 e 1753, os capuchinhos italianos estiveram em Ano Bom, embora com grandes intervalos. Após este período, os anobonenses ficaram dependentes do auxílio de algum sacerdote católico dos navios em trânsito.
Em 1744, a ilha foi integrada oficialmente nos bens da Coroa, deixando de existir os donatários ou capitães-mor. As iniciativas para introduzir funcionários ou clérigos na ilha, vindos de São Tomé, embateram com a resistência dos anobonenses, que se tinham habituado a uma governação independente.
Em 1778, a ilha foi cedida à Coroa espanhola, pelo Tratado de Santo Ildefonso, com Fernão Pó e parte da costa da Guiné, em troca de territórios junto ao Brasil. Esta entrega teve também grande resistência dos anobonenses, obrigando as fragatas castelhanas a abandonarem a ilha, que continuou isolada.
Em meados do século XIX, começou uma colonização mais efectiva por parte das autoridades espanholas. Em 1885, chegaram os primeiros missionários claretianos.
Em 1968, a ilha de Ano Bom foi incluída na nova República da Guiné Equatorial, da qual actualmente é parte integrante.
Os crioulos africanos das ilhas do Golfo da Guiné
A origem do crioulo anobonense remonta à ilha de São Tomé, principal fonte da formação da sociedade e línguas crioulas nas ilhas do Golfo da Guiné.
São Tomé foi a primeira ilha a ser povoada, muito antes das outras ilhas do arquipélago. Nas primeiras décadas do povoamento, além dos portugueses, veio um grande afluxo de africanos destinados a trabalhar nas casas dos povoadores e no campo. Estes primeiros escravos teriam vindo, na sua maioria, da região do antigo Reino do Benim – actual Nigéria -, onde se falava o Edo, língua do grupo Kwa. A partir de 1520, a área de resgate dos escravos mudou-se do Benim para o Congo e depois Angola, zonas em que se falavam variantes bantu do Quicongo e do Quimbundo.
Foi em São Tomé que se formou a primeira sociedade mista que está na origem de uma língua de base lexical portuguesa – o proto-crioulo –, resultante do constante contacto dos trabalhadores africanos com a língua portuguesa, no processo do povoamento da ilha. Foi este crioulo, relativamente já estabilizado, que, por sua vez, originou as quatro línguas crioulas das ilhas: o santomense, o angolar, o principiense e o fá d’Ambô.
A origem do crioulo de Ano Bom
As primeiras trocas linguísticas e culturais em Ano Bom realizaram-se entre 1543 e 1565, quando foram introduzidas as primeiras levas de escravos, provenientes da ilha de São Tomé, para a exploração agrícola. Estes trabalhadores teriam tido um período de fixação nessa ilha, com o processo respectivo de aculturação e, portanto, seriam falantes do proto-crioulo, quando este já estaria estabilizado.
A primeira fase do crioulo anobonense foi marcada pela utilização do léxico da língua portuguesa na vida quotidiana, particularmente na prática religiosa. Em 1623, um religioso capuchinho passou acidentalmente por Ano Bom; durante três dias baptizou umas 200 crianças, regularizou 70 casamentos e confessou quase sem parar, o que lhe foi facilitado por toda aquela gente perceber o português (1).
Com o relativo isolamento da comunidade em Ano Bom, desenvolveu-se o fa d’ Ambô – literalmente falar de Ano Bom – um crioulo com base lexical predominantemente portuguesa.
Em paralelo com o fa d’Ambô, desenvolveu-se também uma variante utilizada nos actos religiosos e na devoção popular. Os primeiros escravos que chegaram a Ano Bom teriam já estado em contacto com o cristianismo e de algum modo familiarizados com as orações e cânticos utilizados nas cerimónias litúrgicas. A assistência religiosa, embora muito esparsa e irregular, deixou na ilha algumas práticas de culto e de devoção que permaneceram ao longo dos séculos. Sem a presença do clero, os habitantes viram-se forçados a reconstruir uma estrutura cultual autóctone, com base na tradição oral e nos objectos ou imagens deixados pelos religiosos. Uma variante do português seiscentista foi mantida pelos anobonenses encarregados das práticas religiosas, nomeadamente pelos influentes sanguistãs (sacristãos).
O fa d’Ambô, uma herança portuguesa
O fa d’Ambô foi a única língua do Golfo da Guiné que, após 1778, continuou a ser falada numa região dominada pela Coroa espanhola. É a língua principal da ilha de Ano Bom, com cerca de 90% do léxico de origem portuguesa.
Os estudiosos consideram o fa d’Ambô o crioulo mais próximo do santomense, com o qual partilha 82% do seu léxico. A base da língua é o português, a que se aculturaram termos das línguas edo (do antigo reino do Benim), quicongo e quimbundo.
Actualmente é falada praticamente por toda a população da ilha, e também pelas comunidades de anobonenses em várias regiões da Guiné Equatorial, nomeadamente na ilha de Bioko (Fernando Pó) e Malabo, nos Camarões e Gabão, num total de cerca de 6500 falantes.
O fa d’Ambô é uma língua com grande importância social, transmitida às novas gerações como língua materna, encontrando-se em situação estável e sem probabilidade de extinção.
Existe também uma variante do fa d’Ambô, utilizada como língua litúrgica, herança das antigas práticas religiosas, considerada pelos anobonenses como língua portuguesa. Trata-se de uma variante híbrida, com muitos elementos do fa d’Ambô, do português e incluindo grande número de expressões latinas. Com efeito, a ausência ou irregularidade da assistência religiosa durante séculos, proporcionou o desenvolvimento de uma linguagem própria nas práticas devocionais, transmitida oralmente, tendo como modelo original textos sagrados em português ou latim, as orações ditas ou cantadas - a Avé Maria, o Pater Noster, o Miserere, o Confiteor, o Benedictus….- ensinadas em tempos pelos missionários, e que se manteve ao longo dos séculos até aos dias de hoje.
Os estudos de investigação do fa d’Ambô
Apesar da sua vitalidade, são ainda muito poucos os estudos descritivos dedicados à língua.
Um dos primeiros autores a identificar o fá d’Ambô foi Raimundo da Cunha Matos (1776-1839) que, na sua Corographia Histórica das ilhas de São Tomé, Príncipe, Ano Bom e Fernando Pó (c. 1818), constatou o parentesco entre as línguas crioulas das ilhas.
A língua foi registada pela primeira vez pelo notável estudioso Hugo Schuchardt (1842-1927), na sua investigação sobre as línguas crioulas nos países falantes da língua portuguesa.
Os primeiros estudos gramaticais foram realizados pelos Padres Isildo Vila - Elementos de la Gramatica Ambu o de Annobon – e Natalio Barrena - Gramatica Anobonesa -, ambos missionários claretianos em Ano Bom no final do século XIX, publicações importantes mas ainda com as limitações próprias do contexto da língua castelhana.
Em Portugal, Alain Kihm e Ernesto d’Andrade organizaram, em Junho de 1991, na Universidade de Lisboa, o primeiro Colóquio sobre crioulos de base lexical portuguesa. Em 2001 foi fundada a ACBLPE - Associação Crioulos de Base Lexical Portuguesa e Espanhola -, destinada à promoção da investigação nesta área.
Em 2010, foi publicada a Gramática Descriptiva del Fá d´Ambô, pelo estudioso Armando Zamora Segorbe.
Em 2012, foi realizada uma missão de pesquisa dirigida por Isabel Oyana Ayorno, coordenada no terreno por Rosângela Morello, nomeadamente em Ano Bom, que esteve na base da publicação em 2014, do livro Fa d’ambô: herança da Língua Portuguesa na Guiné Equatorial.
A vitalidade do fa d’Ambô na ilha de Ano Bom foi um dos factores do estabelecimento do português como uma das línguas oficiais da República da Guiné Equatorial e a sua inclusão como membro de pleno direito na CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa - a partir de 2014.
A relação de Ano Bom com Portugal está patente também na bandeira provincial com a caravela e as quinas portuguesas.
O crioulo anobonense é património imaterial da lusofonia, de valor incalculável. Devido ao isolamento a que a ilha esteve sujeita durante séculos, conserva as características originais da língua-mãe, ainda com traços medievais, dos primeiros povoadores.
- CALDEIRA, Arlindo Manuel, Crenças religiosas e ritos mágicos na ilha de Ano Bom, Povos e Culturas, Lisboa, Universidade Católica Portuguesa, 2007 p.99.
REFERÊNCIAS
- HLIBOWICKA-WEGLARZ, Barbara, A origem dos crioulos de base lexical portuguesa no Golfo da Guiné, Universidade Maria Curie-Skłodowska de Lublin. Romanica Cracoviensia, 11/2011.
- SILVEIRA, Alfredo Christofoletti, AGOSTINHO, Ana Lívia dos Santos, BANDEIRA, Manuele, FREITAS, Shirley, ARAUJO, Gabriel Antunes De, Fa d’Ambô: língua crioula de Ano Bom, Cadernos de Estudos linguísticos, Campinas, Jul./Dez. 2013.
- ZAMORA SEGORBE, Armando, OLIVEIRA, Givan Muller de, MORELLO, Rosângela, MORELLO, Rosangela, FA D’AMBÔ - Herança da Língua Portuguesa na Guiné Equatorial, Instituto Internacional da Língua Portuguesa, Editora Garapuvu Florianópolis, 2014.
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