A Igreja e antigo Mosteiro de São Miguel de Refojos, Cabeceiras de Basto
Nesta página:
I . O Mosteiro de São Miguel de Refojos de Basto: história
II . A Igreja de São Miguel e o antigo Mosteiro: descrição
III . A Ordem Beneditina
IV . São Miguel Arcanjo: culto e iconografia
I . O MOSTEIRO DE SÃO MIGUEL DE REFOJOS DE BASTO: HISTÓRIA
As origens do mosteiro de São Miguel de Refojos remontam ao período da reconquista cristã, anterior à nacionalidade. Possivelmente centro monástico pré-beneditino, estava situado numa região rica das terras do interior do Minho. Desta época ficou a memória de Hermígio Romarigues, o Basto, que segundo antiga tradição popular defendeu valorosamente o mosteiro contra as investidas dos mouros.
O local aparece referido em 1017 como Monasterium Refugii, alusão provável ao facto de se tratar de um lugar de refúgio nos tempos conturbados da reconquista.
Em 1131, D. Afonso Henriques passou carta de couto a D. Gueda Mendes, o mais antigo documento existente relativo à origem do mosteiro. Da mesma época é o célebre cálice em cuja base se encontra a inscrição GEDA MENENDIZ ME FECIT IN ONOREM SCI MICHAELIS E. MCLXXXX - Em honra de São Miguel Gueda Mendes me fez. Era de 1190 (ano 1152).
A história da fundação e do mosteiro de São Miguel de Refojos é paralela à da recristianização da região ocidental da Península Ibérica, que foi avançando para Sul a partir de Entre-Douro-e-Minho, particularmente por acção dos beneditinos.
O mosteiro prosperou durante a Idade Média, enriquecendo e aumentando o seu património com múltiplas doações, sendo os privilégios sucessivamente renovados pelos primeiros reis.
Em 1428 começou a época dos abades comendatários, de governo ruinoso para o mosteiro.
Em 1575, teve lugar a reforma do Mosteiro de São Miguel, considerado de reconhecida importância desde a sua integração na Congregação Beneditina. No primeiro quartel do século XVIII era o segundo maior mosteiro beneditino – depois de Tibães – considerado Casa Grande desde o princípio da Congregação, com rendas provenientes de uma vasta região incluindo Trás-os-Montes.
Em 1767 foi sagrada a nova igreja, considerada por alguns como a mais sumptuosa da ordem beneditina em Portugal.
O mosteiro moldou de forma particular a vida agrícola da região, da qual ainda permanecem vestígios: o lagar, a adega, o moinho de pão. Foi núcleo de assistência na saúde da população local, nomeadamente através da botica com os seus prestigiados boticários. Foi também importante centro de formação, com Colégio de Humanidades e Filosofia, assistido pela notável Livraria.
Pelo mosteiro passaram figuras de relevo como: Frei Diogo de Murça (c. 1495 - 1560), Frei António do Desterro Malheiro (1694-1773), Frei João de Jesus Maria (1716 - 1795), Frei António da Assunção Meireles (1799).
No princípio do século XIX, o mosteiro passou por períodos conturbados, por efeito das invasões francesas e das lutas liberais.
Com a extinção das ordens religiosas, em 1834, os monges foram obrigados à exclaustração. O mosteiro ficou praticamente a saque e muitas obras de arte desapareceram ou foram destruídas. A Livraria, dispersa ou destruída após a extinção do mosteiro, com rico espólio bibliográfico, foi enviada para a Biblioteca Pública de Braga em 1838. As dependências monacais foram vendidas em hasta pública a João António Fernandes Basto († 1873), e posteriormente (1844) à Câmara Municipal. Parte do antigo edifício monacal foi transformado em residência dos herdeiros do novo proprietário – a chamada Casa do Mosteiro. Nas restantes antigas dependências instalaram-se os Paços do Conselho e diversas repartições públicas.
Em 1933, o conjunto monumental foi classificado parcialmente - igreja, sacristia e tecto do Salão Nobre dos Paços do Conselho - como IIP (Imóvel de Interesse Público).
Em 1944, a Casa do Mosteiro foi vendida para a instalação do Externato de São Miguel, inaugurado no dia 29 de Setembro desse ano.
Ao longo do século XX e inícios do século XXI, foram feitas obras de conservação e restauro.
O antigo e secular mosteiro foi um dos mais ricos mosteiros beneditinos da região de Entre-Douro-e-Minho. Os vários incêndios ao longo dos séculos não permitiram a conservação de registos, pelo que de uma forma geral está pouco documentado. Ainda são significativos, no entanto, os vestígios da implantação monástica.
II . A IGREJA E O ANTIGO MOSTEIRO DE SÃO MIGUEL DE REFOJOS: DESCRIÇÃO
O esplêndido conjunto monumental da igreja e antigo mosteiro de São Miguel de Refojos de Basto ergue-se no centro da vila, definindo de modo particular toda a zona envolvente.
Frente à igreja situa-se o antigo terreiro monástico, actual Praça da República, onde ainda se realizam as grandes festas de São Miguel no final de Setembro. No outro extremo da praça, situa-se o cruzeiro com inscrições ANNO 1737 F. GAB.EL DE STA THEREZA, - Fez (o Abade) Frei Gabriel de Santa Teresa. Junto do cruzeiro encontra-se o busto de um guerreiro lusitano – o Basto – tradicionalmente identificado como o do monge-guerreiro que no século VIII defendeu o mosteiro das acometidas mouras.
O conjunto monumental é constituído pela igreja que se impõe pela altura das suas torres e pelas dependências do antigo mosteiro, à esquerda.
A igreja tem a fachada principal em granito lavrado. O grande portal tem no tímpano do frontão as armas da Congregação de São Bento.
Sobre o portal, destaca-se um peculiar varandim com guarda de ferro, tendo ao centro um altar com pequeno retábulo policromado. No nicho, preside a imagem de São Miguel – padroeiro da igreja e do antigo mosteiro - tendo na pare superior inscrita a data 1763, referente à construção da fachada.
Lateralmente, encontram-se as esculturas de São Bento e Santa Escolástica, fundadores da ordem beneditina e do ramo feminino, respectivamente.
Na fachada principal integram-se as altas e sólidas torres sineiras, ambas com mostruário de relógios em granito. A da esquerda mantém os sinos, entre eles o sino grande ou principal colocado em 1789,
O zimbório, de planta octogonal, impressiona pela sua monumentalidade. Tem balaustrada com bustos de pontífices e bispos beneditinos. No lanternim que coroa o zimbório, impõe-se a colossal estátua de São Miguel.
Na fachada lateral, destaca-se uma varanda alpendrada – Solário -, de acesso às antigas dependências monacais.
O Interior da igreja é vasto e grandioso, especialmente iluminado pelo zimbório e pelos amplos janelões laterais. Ressalta o brilho da talha dourada, atribuído ao renomado Frei José de Santo António Ferreira Vilaça (1732-1809).
À entrada, no subcoro, destacam-se o guarda-vento, em madeira policromada, e as pias de águas benta em granito.
O baptistério tem pia baptismal simples assente em coluna estriada, um armário de alfaias integrado na parede e uma admirável balaustrada em pau-santo do mestre Manuel Moreira Dias (1769).
A nave é iluminada pelos grandes janelões emoldurados, do lado direito.
À entrada da nave, de ambos os lados, estão os antigos confessionários, incorporados nas paredes, também emoldurados, no estilo dos mestres entalhadores.
Dois monumentais órgãos setecentistas, apoiados em grandes mísulas de talha polícroma e dourada, encontram-se ao coro alto. As caixas, em madeira de castanho, estão protegidas por varandim de pau-preto e assentes em peculiares carrancas e figuras fantásticas e alegóricas. A parte superior remata com três figuras alegóricas: à direita a Fé, a Esperança e a Caridade; à esquerda, a Igreja, a Justiça e a Fortaleza.
Os órgãos são confrontantes e gémeos, sendo um deles mudo, como era habitual fazer-se na época. O órgão da direita – o verdadeiro – está atribuído ao organeiro Francisco António Solla (1770).
As seis capelas retabulares estão dedicadas a antigas devoções da região e da ordem beneditina. São em talha policromada em tons de amarelo, azul, verde e rosa, com tribuna envidraçada. Estão interligadas por uma balaustrada semelhante à do baptistério, também da autoria de Manuel Moreira Dias.
Do lado direito, encontram-se: o altar de Santa Quitéria, com a respectiva imagem ladeada por São Bento e São João Evangelista; e o altar de Nossa Senhora da Conceição em nicho de fundo floreado. Neste, a imagem tem a particularidade do demónio estar representado com uma carranca.
Do lado esquerdo, encontra-se o altar de Nossa Senhora das Dores. Junto a este altar, está o grande quadro de indulgências concedidas pelo Papa Pio VI em 1787, numa situação de grande turbulência na Europa, para todos os que visitarem este altar de Nossa Senhora das Dores e “pedirem pella paz entre os Princepes Christaons”.
Os púlpitos têm talha idêntica à dos retábulos, com guarda plena de ébano e baldaquino, em total sintonia com estilo barroco do conjunto.
O transepto, amplo e alongado, tem ainda no pavimento os antigos taburnos de pedra das sepulturas. Ao centro, encontra-se a campa brasonada da casa do Barrosão, com o escudo de armas dos Rebelos, Vasconcelos, Leites e Pereiras.
Sobre o cruzeiro, ergue-se o grandioso zimbório, com cerca de trinta e cinco metros de altura. Tem forma oitavada, com gomos de granito assentes em colunas geminadas. A magnífica cúpula oval ilumina toda a igreja. Culmina com o lanternim também com janelas a toda a volta, e cobertura que serve de base à grandiosa estátua de São Miguel, visível no exterior.
Nos braços do transepto, encontram-se os altares colaterais de talha policromada, também de Frei José de Santo António Vilaça: o altar de Nossa Senhora do Rosário, com a imagem de São Miguel que sai na procissão a 29 de Setembro; e o altar do Sagrado Coração de Jesus, com imagens laterais de São Bento e Santa Gertrudes, santos do devocionário beneditino.
Do lado direito do transepto, encontra-se a preciosa capela octogonal do Santíssimo Sacramento. Está revestida a talha policromada e tem quatro janelões que a iluminam particularmente. Destaca-se no retábulo o Cristo Crucificado, o grande sacrário sobre a banqueta do altar, e os admiráveis anjos tocheiros. Duas pinturas com temas eucarísticos, A última Ceia e a Recolha do maná no Deserto, possivelmente de José Teixeira Barreto (1763-1810), completam o conjunto.
Na magnífica e ampla capela-mor, sobressai a obra de talha de Frei José de Santo António Vilaça. É iluminada pelos grandes janelões laterais com moldura em talha e delimitada também por balaustrada.
O grandioso retábulo-mor em talha dourada está profusamente decorado. O sacrário, integrado na talha, constitui a peça central. Destaca-se também o grande quadro representando A Santíssima Trindade e São Miguel, atribuído a José Pascoal Parente (c. 1720-1796), ladeado pelas imagens de São Bento e Santa Escolástica.
Sobre o altar encontram-se magníficos castiçais também em talha, com crucifixo ao centro.
Um grande cadeiral dispõe-se ao longo das paredes laterais, com as cadeiras abaciais salientes.
Do lado esquerdo, fica o acesso à antiga sacristia da igreja, precedida por uma antecâmara, provavelmente a ala mais antiga do mosteiro, actualmente espaço transformado em núcleo museológico.
Na antecâmara, com cota inferior à da igreja, destaca-se o tecto abobadado com arcos em granito e o magnífico lavabo em pedra lavrada. Em exposição encontram-se as esculturas de São Bento e Santa Escolástica, bem como um conjunto de pinturas pertencentes ao mosteiro, atribuídas a Francisco Correia (1568-1616), possivelmente provenientes de algum convento dominicano.
Segue-se a sala ampla da antiga sacristia, com abóboda artesoada com o brasão da Congregação beneditina portuguesa em elementos separados – Castelo, Mitra, Leão - no cruzamento das ogivas.
Na parede testeira em cantaria lavrada com ornatos graníticos, insere-se um retábulo em talha dourada, e lateralmente esculturas da Virgem com o Menino e da Santíssima Trindade.
Dispostos ao longo das paredes, destacam-se os impressionantes arcazes em pau-preto, os dois contadores à entrada e a mesa de tampo octogonal. Todo o conjunto é obra do mestre bracarense Agostinho Marques († 1720).
De destacar igualmente o conjunto de espelhos, de modelo inglês, de Frei José de Santo António Vilaça.
O Coro-alto, conjunto harmonioso de talha, tem uma admirável balaustrada em pau-santo, de Manuel Moreira Dias, com um Oratório com Crucificado ao centro; a singular estante de coro; e o grande cadeiral monástico, de Manuel Carneiro da Costa, Luís Manuel Silva e José da Costa Fernandes (1768).
As antigas dependências monacais são compostas de dois corpos, um deles na continuidade da igreja, mais antigo, disposto em volta de um claustro, obra de Frei Gregório da Madre de Deus (1692), actualmente ocupado pela Câmara Municipal e alguns dos seus serviços. O segundo corpo é mais recente, antigo colégio dos estudantes religiosos, onde actualmente está alojado o Colégio de São Miguel.
O edifício exteriormente é de linhas simples. Na fachada principal, o portal tem inscrição gravada ANO 1690, data correspondente à construção do mosteiro. À esquerda, tem inscrição com as siglas AAFB, abreviatura de Alexandre Augusto Fernandes Basto - herdeiro do antigo proprietário que adquiriu o mosteiro após a sua extinção em 1834 – e a data 1883 3 Abril correspondente à data da remodelação desta fachada.
O grande Claustro, do século XVII, elemento central da vida monástica, característico dos mosteiros beneditinos, comunica com a igreja. Tem forma quadrangular, com nove arcos. No centro mantém-se o chafariz com tanque e taça circular.
O claustro dá acesso ao provável antigo refeitório dos monges – actualmente Auditório Municipal – e ao refeitório dos hóspedes, precedidos por um notável lavatório esculpido em pedra.
Na escadaria principal, de acesso ao piso superior, mantém-se ainda o brasão da ordem beneditina no tecto, a antiga sineta monástica e o nicho esculpido com a imagem de São Bento.
O Salão Nobre – antiga ouvidoria do Mosteiro – tem um singular tecto em caixotões de madeira, classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1933; e também uma grande pintura, representando a Ceia de São Bento e o Corvo atribuída ao Padre Manuel Correia de Sousa (1703).
No Colégio de São Miguel, destaca-se a ampla escadaria, o local das antigas adegas do mosteiro – actual bar -, e um lavabo, idêntico ao da ante-sacristia, numa das salas.
No piso superior encontram-se os antigos dormitórios, actualmente adaptados a salas de aula.
A antiga Sala do Capítulo – actual Capela do Colégio – tem inscrição no lintel do portal PECCANTES CORAM OMNIBUS ARGUE 1 AD TIMÓTEO 5 1703 (Aos que faltam às suas obrigações, repreende-os diante de todos, I Timóteo, 5, 20). A capela tem retábulo de talha dourada com imagem de Santa Gertrudes.
A distinta Livraria foi recentemente recuperada.
III . A ORDEM BENEDITINA
A milenar Ordem Beneditina, Ordo Sancti Benedicti (OSB), teve origem na singular Regra de São Bento. O Santo Patriarca não fundou uma ordem mas vários mosteiros que tinham em comum a Regra, sendo cada mosteiro uma unidade autónoma, sujeita a um Abade, de acordo com o espírito da mesma.
As monjas beneditinas, estabelecidas originalmente num mosteiro situado perto de Montecassino, terão a sua origem em Santa Escolástica, irmã gémea de São Bento.
Impulsionada pelo Papa São Gregório Magno (540-604), a Regra começou a expandir-se pela Europa. No século IX, a vida beneditina era praticamente a única forma de vida monástica da Europa Ocidental. Os monges de São Bento foram os grandes evangelizadores e civilizadores do continente europeu.
A Ordem Beneditina conheceu várias reformas, a primeira das quais teve início na Abadia de Cluny na Borgonha, e por isso é chamada cluniacense. No século XI, teve lugar a importante reforma cisterciense, impulsionada por São Bernardo de Claraval. Posteriormente, no século XVI, realizou-se a grande Reforma Beneditina promovida pelo Concílio de Trento (1545 – 1563) e pelo Papa São Pio V (1504-1572), sendo então criadas as Congregações.
Os beneditinos, também chamados monges negros devido à cor do hábito, professam os três votos essenciais do estado religioso, explicitando o da obediência a submissão ao prior ou abade, bem como os votos de estabilidade no mosteiro ou na congregação, e de conversão dos costumes. O seu lema, Ora et Labora, é um resumo da espiritualidade beneditina, apoiada no Ofício Divino comunitário, que tem significativa expressão nos coros das igrejas monásticas.
A Regra de São Bento é um conjunto de preceitos destinados a regular a vivência da comunidade monástica. Consta de 73 capítulos e abrange temas como a adoração a Deus, os deveres do abade, o comportamento dos monges – nomeadamente os deveres de hospitalidade –, a administração do mosteiro e a sua disciplina.
Os monges beneditinos estavam preparados para exercer qualquer trabalho que fosse compatível com o desempenho do Ofício Divino, de acordo com as necessidades do momento e do lugar onde se encontrassem: estudar ou ensinar, praticar as artes ou a agricultura, etc. O objectivo da Regra era permitir que a vida dos monges fosse uma simbiose fecunda de acção e contemplação.
Devido à sua universalidade, a Regra de São Bento ajudou a moldar a diversidade cultural e civilizacional dos povos, contribuindo activamente para o enraizamento dos valores cristãos em todo o ocidente europeu.
Os beneditinos e a sua Regra estão ligados a Portugal desde a sua origem, entranhados na história do país e de cada região e nas raízes essencialmente cristãs da cultura portuguesa.
A Regra foi introduzida em território portucalense pelos monges cluniacenses, a partir do Concílio de Coiança (c. 1055), embora seja de 959 a primeira referência explícita à mesma. Tendo conhecido grande expansão até ao século XII, foi notável o papel dos mosteiros na tarefa da reconquista cristã, particularmente no Norte, como refere Frei Leão de São Tomás na Beneditina Lusitana: “ (…) na província de Entre-Douro-e-Minho se viu um agregado de tantos mosteiros e de tantas estrelas neles, que com razão lhe podemos chamar Via Láctea da Religião de São Bento de Portugal” (1). A Ordem Militar de Avis, fundada nos finais do século XII, difusora da Regra do Santo Patriarca segundo a reforma Cisterciense, teve um papel particular no Sul do país.
Seguiu-se um longo período de decadência, efeito em grande parte dos excessos de padroeiros e comendatários, com a degradação da disciplina monástica, sendo extintos muitos mosteiros e alguns entregues a outras instituições religiosas.
A reforma da Ordem em Portugal iniciou-se em 1558 a partir do mosteiro de Tibães. Foi criada a Congregação dos Monges Negros de São Bento dos Reinos de Portugal que se dedicou à restruturação dos mosteiros que existiam e promoveu novas fundações.
No século XVII, existiam em Portugal vinte e seis mosteiros beneditinos masculinos e femininos.
Em 1834, na sequência do decreto de extinção das ordens religiosas, os mosteiros foram abandonados, degradando-se rapidamente.
Em 1865, iniciou-se a restauração da Ordem, a partir do antigo mosteiro de Cucujães, por acção de D. Frei João de Santa Gertrudes Leite de Amorim, monge de nacionalidade portuguesa vindo do Rio de Janeiro. Em 1910, no contexto da instauração da República, o mosteiro voltou a ser confiscado.
Em 1938, o mosteiro de Singeverga, entretanto fundado, foi elevado a Abadia, seguindo-se a instalação da cela monástica no antigo mosteiro de São Bento da Vitória no Porto.
IV . SÃO MIGUEL ARCANJO: CULTO E ICONOGRAFIA
Quem como Deus é o significado do termo hebraico – Mi (quem), Ka (como) El (Deus). São Miguel é um dos três arcanjos mencionados na Sagrada Escritura, além de São Rafael e São Gabriel.
O culto é muito antigo na Europa. Uma das tradições está associada à visão do Arcanjo por São João Evangelista, em Colossos, na Frígia, relatada no Apocalipse: “Houve uma batalha no céu: Miguel e os seus anjos tiveram de combater o Dragão. O Dragão e os seus anjos travaram combate, mas não prevaleceram. E já não houve lugar no céu para eles” (Apocalipse 12, 7-8).
O culto disseminou-se por toda a Europa, associado à intercessão de São Miguel nomeadamente nos combates contra os inimigos da Igreja, na luta contra Satanás, e no resgate das almas dos fiéis do poder do demónio, especialmente na hora da morte.
Em 1884, o Papa Leão XIII, durante o período conturbado de ataques à Igreja Católica, compôs a oração de súplica a São Miguel Arcanjo, amplamente difundida, e rezada especialmente após a celebração da Missa. Em 1994, a súplica foi recordada por São João Paulo II “para obter ajuda na luta contra as forças das trevas e contra o espírito deste mundo”.
Em Portugal, o culto é anterior à nacionalidade e muito enraizado, tradicionalmente associado a D. Afonso Henriques. São Miguel Arcanjo foi invocado como principal protector e padroeiro de Portugal (até D. João I). No Norte é frequente a dedicação ao Arcanjo São Miguel de igrejas, capelas e as peculiares alminhas de São Miguel, e também de mosteiros fundados ou construídos neste período, como é o caso do mosteiro de São Miguel de Refojos de Basto.
São Miguel Arcanjo é especialmente honrado e invocado como guarda e protector da Igreja e como guardião dos agonizantes.
Iconograficamente é representado como anjo guerreiro, com armadura, empunhando lança ou espada, tendo aos seus pés o demónio. Tem associado alguns atributos: a balança – alusivo ao peso das almas no Juízo Final -, e o dragão – alusivo à luta contra o demónio, inspirado no livro do Apocalipse.
A Festa de São Miguel é celebrada no dia 29 de Setembro. Em Refojos celebra-se com grande solenidade e magnificência e uma grande feira de tradição secular.
- SÃO TOMÁS, Fr. Leão, Benedictina Lvsitana, Tomo 2, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1974, p. 407.
REFERÊNCIAS
- AZEVEDO, Carlos, (dir.) Dicionário da História Religiosa de Portugal, Lisboa, Ed. Círculo de Leitores, 2000.
- Na Rota de São Bento por Terras de Portugal, Lisboa, Associação Portuguesa de Cultura e Desenvolvimento, 2010.
- DIAS, Geraldo José Amador Coelho, Quando os Monges eram uma Civilização…, Porto, CITCEM, Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura Espaço Memória, Edições Afrontamento, 2011.
- SEQUEIRA, Maria Olga Portela Gonçalves de Paz, A Igreja do Mosteiro de São Miguel de Refojos de Cabeceiras de Basto, Porto, Universidade do Porto, 2013.
- DIAS, Geraldo José Amadeu Coelho, O Mosteiro de São Miguel de Refojos. Jóia do Barroco em Terras de Basto, 2ª Ed., Cabeceiras de Basto, Câmara Municipal, 2024.
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